ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE
Somos nós mesmos, feitos cães na lama,
Protagonizando uma comedia eterna,
Sem ter a luz lucubre de uma caverna,
E carregando a cruz de levar a fama.
Somos nós mesmos, massa desvairada,
Com sede, frio, dor e fome,
Figuras incógnitas e sem nome,
Perdidos na noite sem ter madrugada.
Somos nós mesmos nesta vida ingrata,
Sem os aplausos efusivos de um bom futuro;
Sem a luz da aurora que afasta o escuro,
Indo contra a maré nesta corrente errata.
Somos nós mesmos, perdidos numa cama,
De prego a fazer amor desvirtuado,
Mas o demônio da gula se inflama,
Pune assim a vida de nós, seres abusados.
Somos nós mesmos a perder os trilhos,
Para sementes: os filhos foram contratados,
Pelas línguas torpes a viver sem brilho,
Só de sorte e auxilio, somos condenados.
Somos nós mesmos a fazer caretas,
A amargar a morte expulsando o fado;
Somos nós a raça deste mal agrado,
Últimos heróis a abrir as pernas.
Somos nós mesmos a peste bubônica,
Destruindo este gasto e pobre mundo,
Somos eremitas, sem achar cavernas,
Esta raspa reles do tacho sem fundo.
Somos nós mesmos nesta solidão,
Hoje estamos aqui só com a muda voz,
Para lembrar soldados, tolos mutilados,
E depois consagrados na condenação.
*J.L.BORGES
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