quinta-feira, 28 de maio de 2026

O VULTO


O VULTO 

Quando teu olhar, 
Meu olhar cruza,  
Sinto uma aflição, 
Uma dor confusa. 

Porém teu vulto, 
Como chega, embora vai,  
Deixando este perfume, 
Na noite que se esvai.

Depois que vais embora, 
Que somes na penumbra,  
Meu coração retumba, 
E geme de saudade, 
 
E eu fico aqui tristonho, 
Pois só em sonhos te toco,  
E te beijo com amor; 
Quão louca é esta vontade!

Queria em ti flutuar, 
Porém eu não consigo,  
E vivo aqui cativo, 
Distante de teus beijos. 

Tua boca outra boca toca, 
A minha? Nem pensar,  
E eu fico a sonhar;
Tu és o meu desejo.

Se assim é esta vida, 
Escassa de esperança,  
Eu vou trancar a porta, 
Deste triste coração; 
 
Morrer em vão não vale, 
Retoquei nossas lembranças,  
Transformei-as meu amor 
Em poema e canção.

*J.L.Borgesl ®

VELHAS CARTAS DE AMOR


VELHAS CARTAS DE AMOR 

As cartas de amor que te escrevi,  
São cartas de amor que não mandei;  
Hoje, no silêncio do quarto as reli,  
Confesso, meu amor, que até chorei.

E foram tantas cartas que falavam,  
Relatavam tudo aquilo que sentia;  
Letras trêmulas que confessavam  
O quanto te amava. Que ironia!

As descobri todas esquecidas num envelope,  
De sonhos de amor, rotas e mofadas,  
Me deu uma tristeza desgraçada.

Lembrei de nossos beijos,nossos toques,  
Ó senhora de minha vida e passado,  
E as desbotadas cartas reli em ais dobrados.

J.L.Borges ®
Guaiba 2026/05

MADRUGADA


MADRUGADA  

As três da manhã, a garganta rasa,  
Piso no piso, sorvo o que alivia,  
Água gelada desce em mim fria,  
E ao quarto volto, pássaro, sem asas.

Ela ressona, um fio de ouro à boca,  
Tiro devagar, não a desperto,  
Suspira e busca meu lado quieto,  
E o quarto inteiro minha paz provoca.

Quantas horas cabem num delírio?  
Quantas histórias no quarto escuro?  
Teu peito aflora, gemo e suspiro.

Eu bebo a água, ela afaga meu escuro,  
Mas sorrio ao pensar que ainda respiro   
Na presença dela, o meu futuro.

*J.L.Borges do Brasil ®

—-----------#--------------

Soneto Petrarquiano 


ENTRE O CÉU E O INFERNO


ENTRE O CÉU E O INFERNO

Eu estava a planejando te encontrar,  
E hoje beijar-te suavemente,  
Mas de repente, eu sei, de repente,  
O mundo em tempestade quis virar.

E tudo que eu planejava se perdeu,  
Na estrada da minha triste agonia,  
A tarde se transformou-se em noite fria,  
E a noite moribunda em mim morreu.

O meu céu transformou-se neste inferno,  
De saudades e longe do verão,  
E assim tornei-me eu mesmo o inverno.

E nesta fuga louca me perdi,  
Num emaranhado, teia de paixão,  
Onde só me importa é morrer por ti.

*J.L.Borges ®
Guaiba 2026/05


terça-feira, 26 de maio de 2026

VIAJANTE DAS ESTRELAS


VIAJANTE DAS ESTRELAS  

PRÓLOGO 

Às três da matina parei de bebericar meu vinho tinto e finalizei o microconto onde eu falo de homens verdinhos em naves espaciais.  
Lentamente chego ao meu quarto, me dispo parcialmente e me preparo para meu descanso merecido.  
Já deitado, as pálpebras pesam, estou quase a ressonar, quando ouço um ruído estranho no quintal.  
Pela fresta da janela uma luz fluorescente inunda o meu quarto neste quase quarto de hora, onde eu estou no meu quarto de dormir.

I. A CHEGADA

Às três quartos da terceira hora a nave desce do céu sobre a terra mansa, sem alarde algum, prepotência ou glória, a mesma hora em que eu tinha parado de beber meu vinho e encerrado a escrita de meu microconto extraterrestre. E lá fora o mundo dorme placidamente nesta noite estrelada.  
A nave pousou onde eu planto e vivo, no pátio de minha casa, no meu chão de verdes gramas, um pequeno pomar e uma horta bem cuidada, com algumas galinhas no quintal.  
Era uma nave relativamente pequena, abri a porta para o receber:  
(dois seres envoltos em um silêncio sideral, eu e o viajante espacial.)  
E na incerteza de guerra ou de paz, nos saudamos mutuamente.  
O estranho viajante foi recebido sem festejo, e sem desconfiança abri a porta, sincero na acolhida, e, erguendo o copo de vinho, fiz uma saudação cordial para quebrar o constrangimento e o gelo.  
Acabamos dando mais de mil risadas.  
(E na noite quieta, calma e estrelada, me vi de novo numa nova história, como os relatos de meus antepassados falando de deuses astronautas.)

II. A NEGOCIAÇÃO

Desceu ele a rampa sob a luz argenta da lua cheia, vindo de um distante planeta em ruínas em estranha astronave.  
Eu, erguendo o copo de vinho quase intocável, estava quase a tremer, não sei se era medo ou se era emoção.  
“Troco meu ouro de Saturno ou meu conhecimento por um pouco do seu ar, da sua água e a clorofila de suas verdes matas”, assim disse-me o estranho, com voz embargada de poeira cósmica e saudade estelar.  
O ouro de Saturno eu não quis pois os tenho aqui no meu planeta, e conhecimento nunca é demais.  
Eu, olhando a terra, comecei a refletir:  
“De que vale o conhecimento pleno se não respeitarmos o planeta azul?” Ofereço a ele o ar, a água e o verdejar das matas, porém não cedo a ele o meu chão, e nem mesmo o meu céu.  
Aqui ainda tenho um mundo pulsante e um futuro que é todo meu; eles querem a água, o ar e o verde das matas, eu os tenho ainda em meu planeta, querem silêncio das florestas, e os grandes rios, eu os tenho.  
Querem começo, eu tenho como recomeçar.  
Ele riu sem ter uma boca, na luz que o embalava.  
E assim me falou:  
“Guardaste o segredo, humano animal, fica em teu planeta, levarei um pouco de teu ar, tua água e o verde de tuas matas, e assim o nosso mundo será salvo por vocês, e o nosso conhecimento deixarei, escrito para a tua posteridade.”

III. A CONFISSÃO DELE

“Fomos deuses do passado que aqui pisaram um dia.  
Deixamos de presente a vocês a invenção da roda, a criação do fogo, e nuvens negras do conhecer tecnológico, que aos poucos foi manchando teu planeta.  
Quase roubamos o canto dos teus pássaros, até que vocês, homens, aos poucos foram assimilando o que a vocês deixamos.”  
E ele continua a sua fala sem ter boca:  
“Tem ainda neste planeta pássaros que cantam, peixes em abundância e tantos outros animais, salva-os.  
Tem rios que espelham céus e que ainda te refrescam nos dias quentes de verões, salva-os.  
Tem ainda as noites estreladas, e os dias de sol ardente, distante de explodir.”  
“Vocês, humanos animais, devem adorar e preservar este planeta, escrito e descrito em mil livros antigos.  
Ele é o verdadeiro lar de vocês, ó gente insensata.”

IV. O RITUAL

E na densa alvorada, eu e aquele pequeno ser repetimos o ritual de bebermos o silêncio em copo de vidro garrafal, aquele vinho tinto, ele bebendo sem ter boca.  
Bebemos pra lembrarmos da terra, o portal que vai direto ao infinito, Terra onde os pássaros ainda aqui gorjeiam, e os peixes em abundância ainda nadam nos rios, e os animais ainda vagam em vastas pradarias.

V. O SONHO DELE

E assim ele me diz:  
“Lá no meu planeta sonhamos com um planeta verde e de águas cristalinas, igual ao seu, em vez de nuvens negras de poluição, um mundo com muitos animais iguais aos daqui.”  
“Sonhamos com o sabiá que eu ouvi hoje aqui neste teu quintal, sonhamos com os rios mansos que batem nas barrancas, sonhamos com cachorros e gatos dormindo à luz do sol. Sonhamos com o que a gente tinha e que não mais vê.”

VI. A LIÇÃO

Há cinco mil anos eles vieram ensinar, hoje ele volta pra aprender a beber a nossa água sem medo, e aprender a dormir sem temer o fim do mundo.  
Aprender que "futuro" é saber que acordará no dia seguinte.  
A ruína do planeta deles é o nosso espelho, se a gente continuar a poluir o nosso planeta, será o nosso fim.  
Se a gente continuar a extinguir os animais, outro final, se a gente continuar a trocar nossas matas por campos de pastagens e lavouras colossais, daqui a poucos anos seremos nós a procurar outro planeta para chamar de nosso.

VII. RESSURREIÇÃO

Se nossa terra secar e o céu ficar mosqueado, se os pássaros calarem-se e o verde virar lenda, ainda terei a fala que o cosmos quer que entendamos: "Planta uma árvore onde pousa os teus pés".  
A salvação não vem até nós em naves douradas. Ela nasce do chão da consciência que a gente ainda cultiva. Energia limpa, que da terra deriva:  
sol no telhado, vento nas vidraças e pés no chão.  
Nossos planetas deverão aprender juntos a serem autossustentáveis, sem queimar o amanhã, sem jogar chumbo nas águas, sem expelir fuligem no ar, sem nuvem negra e chuva ácida, só paz do ar respirável.  
Ele levará a salvação que está aqui, nós ficamos com a lição:  
Começar a cuidar do nosso quintal para o planeta todo ser salvo, todos devemos fazer a nossa parte, e assim fecharemos o ciclo com chave de ouro: A Terra e o cosmos, um só tesouro.

EPÍLOGO - O DESPERTAR

De repente me vejo deitado em minha cama, o copo vazio de vinho descansado no criado-mudo ao lado,  
e os manuscritos de meu conto um pouco revirados.  
Será que foi real o que aconteceu comigo agora há pouco ou foi um sonho?  
O relógio dá agora a “quarta” badalada.

J.L.Borges do Brasil ®  
Guaíba, 2026/02



DEUSA ENCANTADA


DEUSA ENCANTADA  

Teu corpo é o ninho macio do beija-flor,  
Tua boca, doce açucena da mata,  
Teus beijos têm sabor o da amora,  
Teus seios são dois favos de mel.

Teus cabelos, folhas de palmeiras ao vento,  
Teu olhar, estrela guia na alvorada,  
Teu caminhar, ondas beijando a praia,  
Tua voz macia, canção do sabiá.

Tuas suaves mãos que me acariciam,  
Pétalas de flores em verdes pradarias.  
Sabes, amor, teus labios tem o perfume

De rosa selvagem no jardim dos sonhadores,  
Que ainda sentem no peito o ardente  
Pulsar de um coração apaixonado.
*
J.L.Borges.do Brasil ®
2026/05



ELES ESTÃO PARA CHEGAR


ELES ESTÃO PARA CHEGAR

Eles estiveram aqui a mais de cinco mil anos atrás, ensinaram os sumerios, os assirios, os babilônios, e até os egípcios, talves tenham até inspirados os hebreus na sua crença do deus único, e depois voltaram a seu lugar de origem, porém como qualquer viajante, sua viagem é demorada, mas eles irão voltar, serão recebidos como os antigos povos os receberam, não sei.
Mas eles voltarão. 

*J.L.Borges.do Brasil ®
2026/05