terça-feira, 4 de agosto de 2026

COMPLEXO DE VIRA LATA



COMPLEXO DE VIRA LATA  

Hoje acordei parecendo um cão vadio;  
Revirando estas latas da fria solidão,  
Lhe dei minha mão, ganhei dela então,  
Apenas a ilusão e um dia sombrio.

Lambi-lhe os pés, lhe dei mil carinhos,  
E ela sozinho, aqui me deixou;  
E agora, ó ingrata, nem sei pra onde vou,  
Caído estou neste abismo daninho.

Meu coraçãoestá bem igual,  
A um vira-lata e vadio cão, 
Lambendo as feridas da doida paixão.  

E agora, o que faço? O que traço, afinal?  
Sei bem o que faço: me ergo do chão,  
Pois eu sou mais eu,não teu animal.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/08

MINHA DESCRENÇA


MINHA DESCRENÇA 

Eu não acredito em padres, 
Eu não acredito em bispos,
Eu não acredito em pastores;
Eu não acredito em papas,
Eu não acredito em monges,
Nem acredito em louvores. 

São gritos…comedias… mitos,
Jogados a goela abaixo,
Dizendo o mundo acabar,
E reconstruir ele de novo, 
Só basta o dízimo aumentar,
Para salvar este povo.

Não mais creio em religião, 
Nem no velhinho barbudo,
Tudo é engodo e trapaça, 
Pedras jogadas em vidraças, 
E o povo jogados as traças,
Sem fé…sem dor…sem anseio.

O povo? Tolas ovelhas,
A se atirarem aos lobos,
Frágeis e tênues centelhas, 
Das estrelas que caem no lodo,
São débeis e sem opinião ,
A oração faz parte do jogo.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/08



terça-feira, 21 de julho de 2026

DAMA DE OURO

DAMA DE OURO 

Apostei meu desespero,  
no jogo do amor;  
E depois do amor ligeiro,  
Veio a malfadada dor.

Mas como chegou partiu,  
E na penumbra vi a dama;  
Luz tênue que sumiu,  
Deixando em mim só lama.

Era de ouro? Assim pensei,  
Mas sei que me enganei:  
Na minha mão, dama de bastos.

Blefei, mas dei um basta!  
Por tanto amar-te, errei.  
Sozinho agora, (eu rei).

*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/07

                  



MUDANÇA

  
MUDANÇA 

O mundo muda depressa,  
Além do meu horizonte,  
Uma canção recomeça:  
São sons de montes e fontes. 

O mundo canta lá fora,  
Lágrimas de chuva que caem;  
Nesta esperança de agora,  
Onde os sorrisos se esvaem. 

Depressa o mundo mudando,  
E eu, andando veloz,  
Tento brilhar neste escuro.

E está mudança no mundo,
Me transporta em outros caminhos, 
Rimo a paz que procuro.

*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/07



RECOMEÇO


RECOMEÇO 

Queria estar hoje cantando,  
Afinando a minha voz,  
Para descortinar o futuro  
Num brilho suave e veloz.

Mas não sou pássaro cantante,  
Nem sequer um vaga-lume;  
Não sei cantar, nem brilhar,  
Esta é minha sina, meu ciúme.

Mas tenho um sonho marcante:  
Sem dor, sem medo ou perfume.  
Meu sonho? Recomeçar.

Um recomeço sem o peso  
Da vida que vem vibrante,  
Tentando me sufocar.

*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/07


SILÊNCIO, RAZÃO E EVOLUÇÃO

  
SILÊNCIO, RAZÃO E EVOLUÇÃO 

Aquela pessoa que odeia o silêncio e ama o barulho  
é uma pessoa vazia por dentro,  
com o coração raso de razão e de emoção.

A pessoa profunda  
anda de mãos dadas com a razão,  
fazendo do silêncio  
a equação para o verdadeiro evoluir do pensamento.

“Quem foge do silêncio foge de si. Quem abraça o silêncio, evolui.”

*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/07

quinta-feira, 16 de julho de 2026

UM DIA NA ERA DO GELO


UM DIA NA ERA DO GELO

Há 40.000 anos atrás  
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Faltam umas 2 horas para o sol nascer. O grupo está adormecido em uma grande caverna. São 14 adultos jovens, 7 homens e 7 mulheres, alguns anciãos e crianças. Estes dois últimos, próximos à fogueira. Logo após, as mulheres. E mais à entrada da caverna, os homens mais jovens. Tudo isso é uma questão de sobrevivência: adultos precisam das mulheres para os afazeres cotidianos e para o próprio seguimento da espécie. Os anciãos, para repassarem o conhecimento a eles próprios e às crianças. E precisam das crianças para o seguimento da espécie e para os cuidados da sua velhice. Tudo uma questão de trocas.
… … …
O sol nem pensa em aparecer. E quando surgir será por poucas horas. E tudo terá que ser feito rapidamente. Aproveitar o curto período de luz e calor, para não ter risco ao pequeno grupo de humanos lá adormecido.  
A neve cai lá fora quase que verticalmente, acumulando na entrada da caverna como túmulo branco.
O vento parece cantar uma nostálgica canção glacial, chega a ferir os ouvidos de Jorg, mas ele terá muitos afazeres juntamente com seus companheiros de caçada, para ficar se preocupando com o vento e sua canção, eles tem uns que cuidarem dos outros, nem pensar em alguém ferido na caçada que é sempre um constante perigo.
… … …

Enfim Jorg, o líder da clã, acorda, desperta em alerta, pois ouviu o uivar de lobos lá fora.  
"Tudo normal" — pensa ele. Olha para a fogueira, o fogo quase extinguindo-se. Pé por pé, para não acordar o grupo, vai até a fogueira e a alimenta com mais toras de lenha.
O frio morde antes do sol nascer. Morde pior que urso polar.  
Os corpos do bicho homem chegam a tremer devido ao frio, mas as grossas peles os protegem, embora precariamente.
… … …

Muito gelo e vento cortante por todos os lados, zunindo nos ouvidos de quem ouve e vê como lobos uivantes.
Estes são os dias da era glacial.  
Ano após ano, parece inverno interminável.  
O pequeno grupo humano tem como objetivo principal o compartilhamento de habitação, alimentação e conhecimento.  
Se for quebrado este elo, fatalmente o pequeno grupo humano como o de Jorg sucumbirá um a um, levando consequentemente à extinção humana.
… … …

Jorg, o chefe da clã, levantou primeiro.  
Cuspiu no fogo e na brasa e falou, quase que grunindo aos seus companheiros:  
— Levantem. Hoje o dia traz cheiro de bicho dos grandes.
Ao redor, 7 corpos masculinos se mexeram dentro do couro de mamutes.  
Éramos "nós".  
As mulheres, os anciãos e as crianças descansaram um pouco mais.
Não tomamos nada na grande caverna forrada de gramas e couros de mamutes.  
Apenas comemos carne dura do dia anterior.  
Ao sairmos da caverna bebemos água do riacho que serpenteava logo à frente.  
E saímos em fila, um a um.
… … …
O campo era amarelo, queimado pelo gelo.  
Capim até o joelho, espinho cortante e céu limpo.  
A terra muito seca porque o mar estava lá embaixo, metros e metros atrás.  
O gelo segurava a água.  
Saímos sabendo que o grupo que ficou na caverna seria protegido pela sabedoria dos anciãos e pela praticidade de nossas mulheres cuidando de nossas crias em segurança. Mas sabendo nós que não poderia ser uma ausência longa, para não pôr o grupo que ficou por lá em risco.  
E assim seguimos um a um.
Não muito longe da caverna, em alguns instantes de observação, Jorg vê no chão marcas. São três dedos desenhando a terra enlameada, marcas bem fundas. E mais uma marca de três dedos, mais superficial.  
— É um bicho grande e um filhote, grande também — falou Jorg.
… … …

Andamos até o sol ficar a pino. O suor gelava nas nossas costas queimadas.  
Lá na frente: ela. 4 metros. Garras do tamanho de lança.  
O filhote, bem nutrido, estava a seu lado.
Jorg olhou pros outros.  
Não precisou falar.  
Fogo na lança.  
Grito.  
Pedra e ação.
Duas horas depois: silêncio.  
Jorg encostou a mão no pelo e falou.  
— Esse filhote aqui dá comida pra muitas luas, couro para nosso abrigo e óleo para as chamas também.
Enquanto cortavam, Jorg ficou quieto.  
A faca de pedra na mão, o cheiro de sangue no ar.
Um pouco exausto, mas feliz pelo sucesso da caçada, pensa baixinho:  
*_"Eu fico me imaginando neste mundo a tantos anos à frente... tão diferente desta vida fria onde ninguém mal lembra do passado, onde nossos ancestrais suaram sangue para aqui eu estar.  
Somos parte do planeta. Carne, suor e vísceras. Mesma terra.  
Mesma fome.  
Mesma sede.  
E no futuro, como seremos e agiremos?  
Será que amaremos esta terra, como hoje amamos?"
… … …
A noite caiu.  
Fogueira alta.  
Carne assando.  
Lobos uivando ao longe.  
Jorg deitou por último.  
Corpo cansado e barriga cheia.  
Olhou pro céu cravejado de estrela, pensou numa vida futura, fechou os olhos e adormeceu.  
Amanhã será um novo dia.
… … …
Antes do término da luz daquele dia, há 40.000 anos atrás, sobre uma tocha rudimentar de óleo do próprio animal caçado, desenho na caverna a saga daquela grande caçada. E como que assinando a epopeia, deixo minhas mãos impressas na parede da caverna glacial.

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E hoje, na atualidade, humanos curiosos,mortais e frágeis tentando decifrar o que ocorreu aquele dia, naquela temota era glacial.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/07