quinta-feira, 16 de julho de 2026

UM DIA NA ERA DO GELO


UM DIA NA ERA DO GELO

Há 40.000 anos atrás  
—-------------------------------------
Faltam umas 2 horas para o sol nascer. O grupo está adormecido em uma grande caverna. São 14 adultos jovens, 7 homens e 7 mulheres, alguns anciãos e crianças. Estes dois últimos, próximos à fogueira. Logo após, as mulheres. E mais à entrada da caverna, os homens mais jovens. Tudo isso é uma questão de sobrevivência: adultos precisam das mulheres para os afazeres cotidianos e para o próprio seguimento da espécie. Os anciãos, para repassarem o conhecimento a eles próprios e às crianças. E precisam das crianças para o seguimento da espécie e para os cuidados da sua velhice. Tudo uma questão de trocas.
… … …
O sol nem pensa em aparecer. E quando surgir será por poucas horas. E tudo terá que ser feito rapidamente. Aproveitar o curto período de luz e calor, para não ter risco ao pequeno grupo de humanos lá adormecido.  
A neve cai lá fora quase que verticalmente, acumulando na entrada da caverna como túmulo branco.
O vento parece cantar uma nostálgica canção glacial, chega a ferir os ouvidos de Jorg, mas ele terá muitos afazeres juntamente com seus companheiros de caçada, para ficar se preocupando com o vento e sua canção, eles tem uns que cuidarem dos outros, nem pensar em alguém ferido na caçada que é sempre um constante perigo.
… … …

Enfim Jorg, o líder da clã, acorda, desperta em alerta, pois ouviu o uivar de lobos lá fora.  
"Tudo normal" — pensa ele. Olha para a fogueira, o fogo quase extinguindo-se. Pé por pé, para não acordar o grupo, vai até a fogueira e a alimenta com mais toras de lenha.
O frio morde antes do sol nascer. Morde pior que urso polar.  
Os corpos do bicho homem chegam a tremer devido ao frio, mas as grossas peles os protegem, embora precariamente.
… … …

Muito gelo e vento cortante por todos os lados, zunindo nos ouvidos de quem ouve e vê como lobos uivantes.
Estes são os dias da era glacial.  
Ano após ano, parece inverno interminável.  
O pequeno grupo humano tem como objetivo principal o compartilhamento de habitação, alimentação e conhecimento.  
Se for quebrado este elo, fatalmente o pequeno grupo humano como o de Jorg sucumbirá um a um, levando consequentemente à extinção humana.
… … …

Jorg, o chefe da clã, levantou primeiro.  
Cuspiu no fogo e na brasa e falou, quase que grunindo aos seus companheiros:  
— Levantem. Hoje o dia traz cheiro de bicho dos grandes.
Ao redor, 7 corpos masculinos se mexeram dentro do couro de mamutes.  
Éramos "nós".  
As mulheres, os anciãos e as crianças descansaram um pouco mais.
Não tomamos nada na grande caverna forrada de gramas e couros de mamutes.  
Apenas comemos carne dura do dia anterior.  
Ao sairmos da caverna bebemos água do riacho que serpenteava logo à frente.  
E saímos em fila, um a um.
… … …
O campo era amarelo, queimado pelo gelo.  
Capim até o joelho, espinho cortante e céu limpo.  
A terra muito seca porque o mar estava lá embaixo, metros e metros atrás.  
O gelo segurava a água.  
Saímos sabendo que o grupo que ficou na caverna seria protegido pela sabedoria dos anciãos e pela praticidade de nossas mulheres cuidando de nossas crias em segurança. Mas sabendo nós que não poderia ser uma ausência longa, para não pôr o grupo que ficou por lá em risco.  
E assim seguimos um a um.
Não muito longe da caverna, em alguns instantes de observação, Jorg vê no chão marcas. São três dedos desenhando a terra enlameada, marcas bem fundas. E mais uma marca de três dedos, mais superficial.  
— É um bicho grande e um filhote, grande também — falou Jorg.
… … …

Andamos até o sol ficar a pino. O suor gelava nas nossas costas queimadas.  
Lá na frente: ela. 4 metros. Garras do tamanho de lança.  
O filhote, bem nutrido, estava a seu lado.
Jorg olhou pros outros.  
Não precisou falar.  
Fogo na lança.  
Grito.  
Pedra e ação.
Duas horas depois: silêncio.  
Jorg encostou a mão no pelo e falou.  
— Esse filhote aqui dá comida pra muitas luas, couro para nosso abrigo e óleo para as chamas também.
Enquanto cortavam, Jorg ficou quieto.  
A faca de pedra na mão, o cheiro de sangue no ar.
Um pouco exausto, mas feliz pelo sucesso da caçada, pensa baixinho:  
*_"Eu fico me imaginando neste mundo a tantos anos à frente... tão diferente desta vida fria onde ninguém mal lembra do passado, onde nossos ancestrais suaram sangue para aqui eu estar.  
Somos parte do planeta. Carne, suor e vísceras. Mesma terra.  
Mesma fome.  
Mesma sede.  
E no futuro, como seremos e agiremos?  
Será que amaremos esta terra, como hoje amamos?"
… … …
A noite caiu.  
Fogueira alta.  
Carne assando.  
Lobos uivando ao longe.  
Jorg deitou por último.  
Corpo cansado e barriga cheia.  
Olhou pro céu cravejado de estrela, pensou numa vida futura, fechou os olhos e adormeceu.  
Amanhã será um novo dia.
… … …
Antes do término da luz daquele dia, há 40.000 anos atrás, sobre uma tocha rudimentar de óleo do próprio animal caçado, desenho na caverna a saga daquela grande caçada. E como que assinando a epopeia, deixo minhas mãos impressas na parede da caverna glacial.

—-------------------------------------
E hoje, na atualidade, humanos curiosos,mortais e frágeis tentando decifrar o que ocorreu aquele dia, naquela temota era glacial.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/07


MILIONÉSIMO DE SEGUNDO


MILIONÉSIMO DE SEGUNDO 
 
(Se a história da Terra fosse 1 dia de 24 horas, nós estaríamos aqui agora.  
Entre o 1º e o 2º milionésimo de segundo.)
… … … … … … … … …

Hoje vi um documentário sobre a linha do tempo da Terra. Fiz a conta da minha vida.  
Resultado: tenho 1,3 milionésimo de segundo.  
Toda a humanidade atual, junto, talvez chegue a 2 milionésimos.

Na escala do tempo e do espaço... somos nada. Nada. Nada. Nada.

E aí eu penso: pra quê tanta soberba? Tanto egoísmo? Tanta maldade?

Somos pó. Pó infinitamente minúsculo.  
Pó vindo de estrelas distantes, no limiar do universo.

Somos só um piscar. E dentro desse piscar já nasceram civilizações inteiras, viveram e sumiram.  
É pra ver como somos insignificantes.

No tempo geológico, somos um tênue espirro atômico.  
Navegados pelo espaço como poeira de uma estrela com "renite" que nos expeliu.

O carbono do corpo, o ferro do sangue, o cálcio dos ossos...  
Tudo foi forjado no coração de sóis que explodiram há bilhões de anos.  
E daí? Pergunta algum cético. E eu prossigo.

A Terra juntou esse pó, deu água, deu tempo. E o pó ganhou vida.  
Da vida surgiu a inteligência.  
E essa inteligência começou a perguntar: de onde viemos? Para onde vamos?  
E começou também a se autodestruir. Pode isso?

A Terra ficou bilhões de anos sem precisar de ninguém.  
Não precisou da gente. Somos nós que precisamos dela. Sacou, cara pálida?

Neste contexto de 1 a 2 milionésimos de segundo, que tal olhar o céu e achá-lo maravilhoso?  
Que tal olhar este planeta que nos abriga e achá-lo maravilhoso?

"Papo de sonhador olhando estrela”, alguns dirão. Tudo bem. Mas vamos continuar esta dissertação real.

Não somos o centro da história da Terra. Nem do universo.  
Somos a milionésima parte da história da Terra que ganhou consciência.

E é por isso que devemos amar e proteger este planeta que nos dá vida.  
Dar o exemplo.  
Para que milhares de gerações, daqui a "uma hora" na idade da Terra,  
ainda possam caminhar neste planeta e pensar como eu penso agora.  
Neste milionésimo de segundo.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba, 07/2026

O MELHOR DA PIOR IDADE


O MELHOR DA PIOR IDADE 

Eu vejo, leio, enfim. Tenho uma gama de informações sobre envelhecer. Uns falam de terceira idade, outros de melhor idade.  
Falam tudo isso esquecendo que o corpo é frágil. E que, com o passar dos anos, começa a degradação.

Por isso acho muito patético quando me falam de "melhor idade". Sou duro, curto e seco. Para mim, a melhor idade já se foi faz tempo.

Imagino-me com meus 20 anos, 30 anos, 40 anos. Estas foram minhas melhores idades.  

Passando dos 50 começa a decadência do ser humano. 
60: dores aqui e ali.  
70: mais dores e dores.  
80: além das dores, o esquecimento. Isso é terrível.  
E aos 90?

Fico pensando: o ser humano tem prazo de validade saudável. Passou o prazo e ele insiste. Por quê? Pra quê?  
Se perguntarmos, ele responde que quer chegar aos 120.

Desse jeito que a sociedade se porta, vale a pena?  
Na cabeça dos mais jovens, velho tem pouco valor, a não ser pelo lado financeiro se o velhote é bem aposentado. (Velho, ancião)... qual será a forma politicamente correta?

Mas vamos lá. Sou muito jovem para desembarcar dessa nave chamada Planeta Terra.  
Quero chegar aos 150.

J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/07

A CHAMA DO NOSSO AMOR

A CHAMA DO NOSSO AMOR  

Quero te beijar, querida,  
Com volúpia e com ardor;  
E você verá estrelas,  
Gemerás sem sentir dor.

Quando eu te abraçar, ó vida,  
Na cadência deste amor;  
Eu também verei estrelas,  
E gemerei sem sentir dor.

E nós dois navegaremos  
Neste voluptuoso oceano  
De paixões e de mil planos,

Onde a chama que acendemos  
Tremula... apaga... reacende,  
Todo o tempo... ano a ano.

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/07

domingo, 5 de julho de 2026

NÃO SOMOS MAQUINAS


NÃO SOMOS MÁQUINAS

Palavras de ajuda valem muito mais que qualquer riqueza do mundo. O dinheiro pode comprar muita coisa, mas não compra a verdadeira amizade.  
As boas palavras de aconselhamento tornam nossa mente mais leve. Nós, que não somos máquinas, sabemos que o líquido que lubrifica nossa mente e nos dá paz são as palavras amigas.

*J.L. Borges, do Brasil ®
Guaiba 2026/07



SAUDADE DA LEVEZA DO SER


SAUDADE DA LEVEZA DO SER

“Quando começamos a envelhecer nossa vida se transforma em um rosário de saudade”
—----------------------------------
Tenho saudade da minha leveza,  
Quando flutuava pelos campos da minha juventude.  
Saudade do riso fácil que fluía da minha alma  
Como águas de cascatas cristalinas 

É uma saudade imensa, 
Mal cabe dentro do peito    
Mas cabe todinha dentro do meu coração.

*J.L. Borges, do Brasil ®
Guaiba 2026/07


O CONTADOR...Conto


O CONTADOR

Fulano de Tal era um sujeito miserável de marca maior. Como diz um velho ditado, o negócio dele era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Enfim, acumular horas extras para ganhar bastante dinheiro. Como ele sempre dizia, era a alegria dos patrões, pois trabalhava 12 horas por dia, sete dias por semana. 
- "Namorar? Capaz!" - falava ele. "Isso dá muito gasto."
Claro que, com esse pensamento miserável, morava sozinho, dormia sozinho e falava sozinho. Na empresa, nem pensar em ficar de "trololó" com os colegas. Tinha que produzir, produzir, produzir. Só assim ganharia mais e mais.
Fulano era tão ganancioso e amava tanto o dinheiro que, quando saía do serviço, corria para casa, trancava-se no quarto e se punha a contar seu dinheiro. Contar, contar e contar. Só depois, já exausto de contar, é que ia fazer seus afazeres domésticos.
Sua paixão pelo dinheiro era tanta que o recebia direto das mãos dos patrões. Só para sentir o calor das cédulas nas mãos e o volume nos bolsos. O sujeito não o colocava no banco. Guardava-o em seu quarto, a sete chaves, só para poder vê-lo diuturnamente.
Certa noite, por milagre, estava a olhar o céu estrelado e imaginou cada estrela como se fosse moeda de ouro e prata. Todas dele, lógico. Suspirou, pensando no prazer que seria contá-las uma a uma e deixá-las bem organizadas em seu quarto, que aliás já abrigava uma considerável quantia em dinheiro.
Com esse pensamento, o avarento e ganancioso sujeito foi dormir. Tinha que acordar cedo. O trabalho o esperava de braços abertos.
Acordou, como sempre, cedo. Foi se preparar para a labuta. Abre a porta do quarto e, eis que, para seu espanto, vê por toda a sala cédulas e mais cédulas, de todos os valores. Chega a babar de felicidade e rapidamente começa a colocá-las dentro do quarto. Esquece da refeição, do trabalho, enfim, de tudo à sua volta, e começa a contá-las freneticamente, organizando-as por seus respectivos valores. Assim passa o dia todo contando. Lá pelas 10 da noite, já cansado, consegue organizá-las e anotar o valor de sua fortuna, que caíra por encanto em seu colo. Muito cansado, dorme ali mesmo, ao lado daquela fortuna.
Lá pelas tantas da madrugada acorda e, para sua surpresa, nada estava lá. Todo aquele dinheiro tinha sumido.  
"Será que enlouqueci?", pensa ele. "Será que foi uma alucinação?"  
Olha ao lado e vê todas as anotações. Muita grana, por sinal. Fica alguns instantes pensando. Roubo não podia ser. Sua casa era bem fechada, com alarme de segurança para proteger seu amado dinheiro. Corre e olha embaixo da cama. Lá está sua mala intacta. Então não foi roubo. Foi sim uma alucinação. Abre a mala e começa sua contagem diária. Depois disso volta a dormir, para retomar sua rotina e dar uma boa desculpa. Afinal, ele trabalha na mesma empresa há 25 anos e nunca faltou um dia sequer.
O avarento acorda no horário de costume, levanta-se e vai preparar seu desjejum. Ao abrir a porta do quarto, olha esbugalhado: aquela fortuna espalhada por toda a sala! Sem pensar duas vezes, leva tudo para o quarto. Esquece do trabalho e recomeça sua frenética contagem e anotações. Lá pelas 9 da noite, a fome bate. A contragosto interrompe a contagem, faz uma rápida refeição e volta a contar, anotar, contar, anotar. Termina um pouco mais tarde e, exausto, cai num sono ferrado.
Ao acordar pela manhã, fica estupefato. Toda aquela grana, contada, anotada e organizada, tinha sumido.  
"Não pode ser", pensa ele. "Enlouqueci mesmo?"  
Porém, olha ao lado e vê os papéis de suas anotações. Fica sem saber o que pensar. Mas num estalo lembra do trabalho. O que vai explicar agora por 2 dias de falta? Vai ter que mentir que estava acamado. Não gosta muito disso. Mentir requer energia pra gastar, e gastar não era com ele. Mas vai lá e, por uma boa causa, fala a seus botões.
E assim se prepara para começar sua rotina: trabalhar, receber, contar, guardar. Apesar de já estar cansando de tanta contagem, meio trôpego abre lentamente a porta do quarto.  
"Não é possível!", geme ele. Espalhada por toda a casa, aquela imensa fortuna. Agora parecia um montante ainda maior.  
"O que fazer?", pensa ele. "Não posso deixar toda essa dinheirama espalhada pela sala e ir trabalhar como se nada tivesse acontecido. O trabalho que se exploda", fala ele. "Eu vou é recolher este dinheiro, que é todo meu. Contá-lo, organizá-lo e anotar tudo novamente. Só que agora não vou dormir. Quero ver se vai sumir. Amanhã vou lá na firma. Não vou dar explicações. Eu vou é comprar a empresa para adquirir mais e mais dinheiro. Meus colegas vão ver. A primeira coisa que vou fazer é cortar as horas de pausa para o almoço e outras regalias. Deixa comigo."
E assim o avarento recomeça sua surreal contagem. Esquece até da fome. O dia todo passa contando, anotando, organizando. Lá pelas 5 da tarde bate a fome. Frita um ovo, pega um café requentado e um pão já duro e amanhecido. Faz uma rápida refeição.
Passados 3 dias de falta de Fulano de Tal, os patrões vão até a casa do sujeito. Coisa que não era costume deles, mas quebraram a regra por se tratar de um funcionário antiquíssimo que nunca tinha faltado meio dia de serviço sequer. Não telefonaram, pois, tão miserável que era, nem um simples aparelho celular ele tinha. "Gastar inutilmente pra quê?", dizia ele. "Gosto é de falar olho no olho."
Chegando lá, batem palmas, gritam e nada. Com muita dificuldade pulam o portão. Batem na porta, e ao fazê-lo notam que estava apenas encostada. Adentram o imóvel. Tudo em silêncio. Chamam o homem. Em resposta, mais silêncio. Vão casa adentro, imaginando o pior.  
"Boa coisa não é", fala um dos homens.
Chegam na sala: vazia e silenciosa. Olham a peça ao lado. Vem uma luz pelas frestas da porta. Abrem-na. E lá está o homem, rodeado de rolos e rolos de papel higiênico e outros tantos papéis picotados. O homem, ajoelhado, contando-os, anotando-os em algumas folhas de papel e os colocando em grandes caixas de papelão.
Eles ficam ali, imóveis, a observá-lo. Uma hora depois, o veem recolocar todos aqueles picotes no chão e recomeçar a recontagem.
Agora, lá no manicômio, tem um novo hóspede bem pitoresco, por sinal.  
Seu codinome? *O Contador".

*J.L. Borges, do Brasil ®