HOMO DIGITAL
Há milhares de anos, alguns tipos de humanos dividiram a Terra simultaneamente, vamos a alguns exemplos: Homo habilis, de corpo e cérebro pequenos, lascava as primeiras ferramentas de pedra e ainda subia em árvores para fugir de predadores.
Homo erectus, o primeiro a sair da África, chegou à Ásia e Europa.
Mais alto e de cérebro maior, dominou o fogo, vivia em pequenos grupos familiares e já se comunicava.
Neandertal, da Europa e Eurásia, era muito mais forte que nós, com cérebro similar ao nosso.
Dominava o fogo, enterrava seus mortos em rituais, vivia em comunidade e cuidava dos doentes.
Deixou seu DNA em nós antes de desaparecer misteriosamente. Denisovanos, primos dos neandertais, viveram na Sibéria e no Tibete.
Quase não deixaram rastros, mas seu DNA permanece em asiáticos e indígenas.
Homo floresiensis, da Ilha de Flores na Indonésia, chegou ali provavelmente em troncos levados pela corrente.
Com pouca comida, foi diminuindo de tamanho para sobreviver.
Homo sapiens, nós, surgimos na África e nos espalhamos pelo planeta. Mais frágil que o neandertal, vencemos pela rede social elaborada, linguagem complexa e raciocínio livre. Por isso criamos cidades e nações.
Permanecemos aqui, mas corremos um novo risco: o surgimento do Homo digital.
Homo digital, Um estranho ser que surgiu no início do século XXI devido ao avanço da tecnologia virtual. Uma criatura indecifrável que mantém milhares de relações virtuais e nenhuma real.
Seu mundo é ilusório. Amigos, amores e inimigos são relações supérfluas. Não há contato, não há conversa olho no olho, tudo se resume num clicar e pronto do Brasil o sujeito vai ao Japão ilusoriamente em um segundo.
Este ser está se tornando uma figura caricata.
Acredita conhecer o mundo lá fora sem sair de seu minúsculo cubículo, onde a tela é seu passaporte. Quando sai dali, o que faz raramente, seu mundo fica sem chão.
Desorientado, mal-humorado, tem como bengala o celular que não larga nunca.
Tem medo das pessoas ao redor, fala por monossílabos, isso quando fala.
Se precisar escrever uma frase à mão, seu cérebro entra em ebulição, porque aprendeu a digitar, não a escrever.
Estudos dizem que essa criatura está revertendo a evolução humana.
Seu cérebro pode encolher ou estagnar, pois está desaprendendo a pensar.
A IA pensa por ele.
Depois de algum tempo no mundo real, onde se sente sufocado, volta para seu quarto semi escuro, 4x4, onde a tela é seu mundo.
A alegria fútil volta nas conversas com milhares de seres iguais a ele, íntimo das IAs, digitando centenas de caracteres por minuto, mas incapaz de rabiscar num papel um simples "oi, tudo bem?".
Fala sozinho, ri sozinho, chora sozinho.
E vai acabar morrendo sozinho.
Cercado apenas de seres virtuais.
*J.L. Borges do Brasil ®
20 de Outubro de 2026 Guaíba/RS