OS CHUPA-SANGUE
Quase me esqueço, há muito tempo,
Houve na floresta uma assembléia;
O gafanhoto era o orador,
E as lombrigas eram a platéia.
Tantos insetos no palanque,
Discursos, aplausos e ovações;
Na urna o voto indireto,
Depois aos poucos as nomeações.
Todos presentes no mosqueiro,
Do mais pacifico ao mais feroz;
O fura bosta é o tesoureiro,
O saga-pedo, o porta voz.
Bicho da seda, o alfaiate,
Fazendo trazes e pergaminhos;
O seu ferrugem um bom repórter,
Nas estrelinhas das entrelinhas.
A centopéia, a secretaria,
A jovem crisálida, a redatora;
O Zé caramujo o coordenador,
A dona mutuca a corregedora.
As tontas mariposas professoras,
Os bichos de pés, nobres cientistas;
As lesmas ágeis doutoras,
Os bicho de paus eram analistas.
Tantos insetos conselheiros,
Do ajudante ao comissário;
Alguns insetos eram anarquistas,
Outros insetos, proletários.
E aquela multidão crescente,
Grudados em suas tetinhas;
Um chupa-chupa indecente,
Num mundo de ervas daninhas.
A mosca das frutas ambiciosas,
Pegam logo um ministério;
O zangão zangado, marqueteiro,
Fez de sua nomeação grande mistério.
Todos felizes na assembléia,
O seu barata insatisfeito;
Como não tinha faculdade,
Se contentou a ser prefeito.
Dom escaravelho tornou-se bispo,
Dom louva deus, velho cardeal;
Sr. Aranha, sábio rabino,
Nos velhos templos da capital.
As vespas tornaram-se obreiras,
As moscas azuis, sacerdotisas;
E as borboletas sonhadoras,
Por opção as poetizas.
E nas mesquitas, quantas lagartas,
Clamando em coro o tal corão;
As tenras minhocas estremecidas,
Em penitencia na oração.
Seu pirilampo virou vigário,
Seu pernilongo virou pastor
Mestre cascudo, um operário,
Que derepente virou reitor.
Seu caramujo, chefe da guarda,
Seu muriçoca o capitão;
Bicho cabeludo, outro soldado,
Junto aos cupins na guarnição.
Taturana virou segurança,
Dona joaninha a assessora;
Seu vaga-lume, brilhante juiz.
Dona formiga, a promotora.
Dona pulga, procuradora,
Chico piolho um vereador;
A sangue sunga, uma deputada,
O carrapato um senador.
Bicho barbeiro , capitalista,
O Zé mosquito, um delegado;
Senhor grilo o caixa dois,
Chato e birigui advogados.
Traças, trapaças em tantas partes,
Redigindo atas, cartas e bilhetes;
O percevejo nomeou as efêmeras,
Secretarias de gabinetes.
Zeca pulgão o inspetor,
Dona cigarra a intendente;
Seu formigão, governador,
E abelhão, o presidente.
Dona abelha, jovem rainha,
Primeira dama da presidência,
E tantas larvas adormecidas,
As suas aias por experiência.
Depois dos cargos adquiridos,
Muita comilança pela floresta;
Depois dos cargos já preenchidos,
Muitos rojões na longa festa.
E assim ficou nossa floresta,
Marca ferrenha da ferradura;
A nossa fria democracia,
Se acoreou com a dita dura.
*J.L.BORGES
Nenhum comentário:
Postar um comentário