quarta-feira, 14 de março de 2018

OS CHUPA-SANGUE

OS CHUPA-SANGUE

Quase me esqueço, há muito tempo,

Houve na floresta uma assembléia;

O gafanhoto era o orador,

E as lombrigas eram a platéia.

Tantos insetos no palanque,

Discursos, aplausos e ovações;

Na urna o voto indireto,

Depois aos poucos as nomeações.

Todos presentes no mosqueiro,

Do mais pacifico ao mais feroz;

O fura bosta é o tesoureiro,

O saga-pedo, o porta voz.

Bicho da seda, o alfaiate,

Fazendo trazes e pergaminhos;

O seu ferrugem um bom repórter,

Nas estrelinhas das entrelinhas.

A centopéia, a secretaria,

A jovem crisálida, a redatora;

O Zé caramujo o coordenador,

A dona mutuca a corregedora.

As tontas mariposas professoras,

Os bichos de pés, nobres cientistas;

As lesmas ágeis doutoras,

Os bicho de paus eram analistas.

Tantos insetos conselheiros,

Do ajudante ao comissário;

Alguns insetos eram anarquistas,

Outros insetos, proletários.

E aquela multidão crescente,

Grudados em suas tetinhas;

Um chupa-chupa indecente,

Num mundo de ervas daninhas.

A mosca das frutas ambiciosas,

Pegam logo um ministério;

O zangão zangado, marqueteiro,

Fez de sua nomeação grande mistério.

Todos felizes na assembléia,

O seu barata insatisfeito;

Como não tinha faculdade,

Se contentou a ser prefeito.

Dom escaravelho tornou-se bispo,

Dom louva deus, velho cardeal;

Sr. Aranha, sábio rabino,

Nos velhos templos da capital.

As vespas tornaram-se obreiras,

As moscas azuis, sacerdotisas;

E as borboletas sonhadoras,

Por opção as poetizas.

E nas mesquitas, quantas lagartas,

Clamando em coro o tal corão;

As tenras minhocas estremecidas,

Em penitencia na oração.

Seu pirilampo virou vigário,

Seu pernilongo virou pastor

Mestre cascudo, um operário,

Que derepente virou reitor.

Seu caramujo, chefe da guarda,

Seu muriçoca o capitão;

Bicho cabeludo, outro soldado,

Junto aos cupins na guarnição.

Taturana virou segurança,

Dona joaninha a assessora;

Seu vaga-lume, brilhante juiz.

Dona formiga, a promotora.

Dona pulga, procuradora,

Chico piolho um vereador;

A sangue sunga, uma deputada,

O carrapato um senador.

Bicho barbeiro , capitalista,

O Zé mosquito, um delegado;

Senhor grilo o caixa dois,

Chato e birigui advogados.

Traças, trapaças em tantas partes,

Redigindo atas, cartas e bilhetes;

O percevejo nomeou as efêmeras,

Secretarias de gabinetes.

Zeca pulgão o inspetor,

Dona cigarra a intendente;

Seu formigão, governador,

E abelhão, o presidente.

Dona abelha, jovem rainha,

Primeira dama da presidência,

E tantas larvas adormecidas,

As suas aias por experiência.

Depois dos cargos adquiridos,

Muita comilança pela floresta;

Depois dos cargos já preenchidos,

Muitos rojões na longa festa.

E assim ficou nossa floresta,

Marca ferrenha da ferradura;

A nossa fria democracia,

Se acoreou com a dita dura.

 *J.L.BORGES















Nenhum comentário:

Postar um comentário