VIAJANTE DAS ESTRELAS
PRÓLOGO
Às três da matina parei de bebericar meu vinho tinto e finalizei o microconto onde eu falo de homens verdinhos em naves espaciais.
Lentamente chego ao meu quarto, me dispo parcialmente e me preparo para meu descanso merecido.
Já deitado, as pálpebras pesam, estou quase a ressonar, quando ouço um ruído estranho no quintal.
Pela fresta da janela uma luz fluorescente inunda o meu quarto neste quase quarto de hora, onde eu estou no meu quarto de dormir.
I. A CHEGADA
Às três quartos da terceira hora a nave desce do céu sobre a terra mansa, sem alarde algum, prepotência ou glória, a mesma hora em que eu tinha parado de beber meu vinho e encerrado a escrita de meu microconto extraterrestre. E lá fora o mundo dorme placidamente nesta noite estrelada.
A nave pousou onde eu planto e vivo, no pátio de minha casa, no meu chão de verdes gramas, um pequeno pomar e uma horta bem cuidada, com algumas galinhas no quintal.
Era uma nave relativamente pequena, abri a porta para o receber:
(dois seres envoltos em um silêncio sideral, eu e o viajante espacial.)
E na incerteza de guerra ou de paz, nos saudamos mutuamente.
O estranho viajante foi recebido sem festejo, e sem desconfiança abri a porta, sincero na acolhida, e, erguendo o copo de vinho, fiz uma saudação cordial para quebrar o constrangimento e o gelo.
Acabamos dando mais de mil risadas.
(E na noite quieta, calma e estrelada, me vi de novo numa nova história, como os relatos de meus antepassados falando de deuses astronautas.)
II. A NEGOCIAÇÃO
Desceu ele a rampa sob a luz argenta da lua cheia, vindo de um distante planeta em ruínas em estranha astronave.
Eu, erguendo o copo de vinho quase intocável, estava quase a tremer, não sei se era medo ou se era emoção.
“Troco meu ouro de Saturno ou meu conhecimento por um pouco do seu ar, da sua água e a clorofila de suas verdes matas”, assim disse-me o estranho, com voz embargada de poeira cósmica e saudade estelar.
O ouro de Saturno eu não quis pois os tenho aqui no meu planeta, e conhecimento nunca é demais.
Eu, olhando a terra, comecei a refletir:
“De que vale o conhecimento pleno se não respeitarmos o planeta azul?” Ofereço a ele o ar, a água e o verdejar das matas, porém não cedo a ele o meu chão, e nem mesmo o meu céu.
Aqui ainda tenho um mundo pulsante e um futuro que é todo meu; eles querem a água, o ar e o verde das matas, eu os tenho ainda em meu planeta, querem silêncio das florestas, e os grandes rios, eu os tenho.
Querem começo, eu tenho como recomeçar.
Ele riu sem ter uma boca, na luz que o embalava.
E assim me falou:
“Guardaste o segredo, humano animal, fica em teu planeta, levarei um pouco de teu ar, tua água e o verde de tuas matas, e assim o nosso mundo será salvo por vocês, e o nosso conhecimento deixarei, escrito para a tua posteridade.”
III. A CONFISSÃO DELE
“Fomos deuses do passado que aqui pisaram um dia.
Deixamos de presente a vocês a invenção da roda, a criação do fogo, e nuvens negras do conhecer tecnológico, que aos poucos foi manchando teu planeta.
Quase roubamos o canto dos teus pássaros, até que vocês, homens, aos poucos foram assimilando o que a vocês deixamos.”
E ele continua a sua fala sem ter boca:
“Tem ainda neste planeta pássaros que cantam, peixes em abundância e tantos outros animais, salva-os.
Tem rios que espelham céus e que ainda te refrescam nos dias quentes de verões, salva-os.
Tem ainda as noites estreladas, e os dias de sol ardente, distante de explodir.”
“Vocês, humanos animais, devem adorar e preservar este planeta, escrito e descrito em mil livros antigos.
Ele é o verdadeiro lar de vocês, ó gente insensata.”
IV. O RITUAL
E na densa alvorada, eu e aquele pequeno ser repetimos o ritual de bebermos o silêncio em copo de vidro garrafal, aquele vinho tinto, ele bebendo sem ter boca.
Bebemos pra lembrarmos da terra, o portal que vai direto ao infinito, Terra onde os pássaros ainda aqui gorjeiam, e os peixes em abundância ainda nadam nos rios, e os animais ainda vagam em vastas pradarias.
V. O SONHO DELE
E assim ele me diz:
“Lá no meu planeta sonhamos com um planeta verde e de águas cristalinas, igual ao seu, em vez de nuvens negras de poluição, um mundo com muitos animais iguais aos daqui.”
“Sonhamos com o sabiá que eu ouvi hoje aqui neste teu quintal, sonhamos com os rios mansos que batem nas barrancas, sonhamos com cachorros e gatos dormindo à luz do sol. Sonhamos com o que a gente tinha e que não mais vê.”
VI. A LIÇÃO
Há cinco mil anos eles vieram ensinar, hoje ele volta pra aprender a beber a nossa água sem medo, e aprender a dormir sem temer o fim do mundo.
Aprender que "futuro" é saber que acordará no dia seguinte.
A ruína do planeta deles é o nosso espelho, se a gente continuar a poluir o nosso planeta, será o nosso fim.
Se a gente continuar a extinguir os animais, outro final, se a gente continuar a trocar nossas matas por campos de pastagens e lavouras colossais, daqui a poucos anos seremos nós a procurar outro planeta para chamar de nosso.
VII. RESSURREIÇÃO
Se nossa terra secar e o céu ficar mosqueado, se os pássaros calarem-se e o verde virar lenda, ainda terei a fala que o cosmos quer que entendamos: "Planta uma árvore onde pousa os teus pés".
A salvação não vem até nós em naves douradas. Ela nasce do chão da consciência que a gente ainda cultiva. Energia limpa, que da terra deriva:
sol no telhado, vento nas vidraças e pés no chão.
Nossos planetas deverão aprender juntos a serem autossustentáveis, sem queimar o amanhã, sem jogar chumbo nas águas, sem expelir fuligem no ar, sem nuvem negra e chuva ácida, só paz do ar respirável.
Ele levará a salvação que está aqui, nós ficamos com a lição:
Começar a cuidar do nosso quintal para o planeta todo ser salvo, todos devemos fazer a nossa parte, e assim fecharemos o ciclo com chave de ouro: A Terra e o cosmos, um só tesouro.
EPÍLOGO - O DESPERTAR
De repente me vejo deitado em minha cama, o copo vazio de vinho descansado no criado-mudo ao lado,
e os manuscritos de meu conto um pouco revirados.
Será que foi real o que aconteceu comigo agora há pouco ou foi um sonho?
O relógio dá agora a “quarta” badalada.
J.L.Borges do Brasil ®
Guaíba, 2026/02
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