terça-feira, 26 de maio de 2026

NEGRINHA


NEGRINHA

Tu não miava, tu conversava.  
Onde eu ia, teu passo ia atrás.  
Sombra pequena, felina e brava,  
Dormia em mim e acordava em paz.

Tinha peraltice no negro do olhar,  
Sabedoria animal, de quem não fala.  
Entendia meu silêncio sem cobrar,  
E me ensinava sem dar aula.

Dias vazios sem teus passos no chão,  
A casa aprendeu o som do vazio.  
Te levaram depressa, sem razão,  
E o mundo sombrio ficou mais frio.

Tu vieste com a água, há dois anos,  
Quando a cidade num caos virou rio.  
Não te escolhi nos meus planos:  
Tu que me escolheste, fui teu desafio.

Negrinha, cor da noite sem luar,  
Um caudal de paz e de ternura; 
Onde eu ia, tuas patas iam par em par,  
Esperta, afável, miado e travessura.

Entendia o amor que estava em mim,  
Dormia em cima do meu peito.  
Fazia peraltice, enfim...  
Me ensinava a amar sem ter defeito.

Mas a rua sem piedade te levou,  
Depressa demais,foi pouca a despedida.  
Alguém insano não soube quem atropelou:  
Mas levou com certeza um naco da minha vida.

Mas gato escolhe. E tu me escolheste.  
Na lama, no medo, no aguaceiro.  
Se *tem* céu, tu chegaste lá primeiro,  
E já deves sentir falta de meu cheiro.

Sei que gato não morre, só some.  
Vira estrela, vira vento, e mais...  
Se eu chamar em sonhos teu nome,  
Sei que tu voltas, e volta minha paz.

“Volta em meus sonhos, Negrinha.  
A porta à tua espera continua aberta.  
Aqui ainda chove, e eu sozinho,  
Sinto esta saudade cruel que hoje aperta.

*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/05



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