NEGRINHA
Tu não miava, tu conversava.
Onde eu ia, teu passo ia atrás.
Sombra pequena, felina e brava,
Dormia em mim e acordava em paz.
Tinha peraltice no negro do olhar,
Sabedoria animal, de quem não fala.
Entendia meu silêncio sem cobrar,
E me ensinava sem dar aula.
Dias vazios sem teus passos no chão,
A casa aprendeu o som do vazio.
Te levaram depressa, sem razão,
E o mundo sombrio ficou mais frio.
Tu vieste com a água, há dois anos,
Quando a cidade num caos virou rio.
Não te escolhi nos meus planos:
Tu que me escolheste, fui teu desafio.
Negrinha, cor da noite sem luar,
Um caudal de paz e de ternura;
Onde eu ia, tuas patas iam par em par,
Esperta, afável, miado e travessura.
Entendia o amor que estava em mim,
Dormia em cima do meu peito.
Fazia peraltice, enfim...
Me ensinava a amar sem ter defeito.
Mas a rua sem piedade te levou,
Depressa demais,foi pouca a despedida.
Alguém insano não soube quem atropelou:
Mas levou com certeza um naco da minha vida.
Mas gato escolhe. E tu me escolheste.
Na lama, no medo, no aguaceiro.
Se *tem* céu, tu chegaste lá primeiro,
E já deves sentir falta de meu cheiro.
Sei que gato não morre, só some.
Vira estrela, vira vento, e mais...
Se eu chamar em sonhos teu nome,
Sei que tu voltas, e volta minha paz.
“Volta em meus sonhos, Negrinha.
A porta à tua espera continua aberta.
Aqui ainda chove, e eu sozinho,
Sinto esta saudade cruel que hoje aperta.
*J.L.Borges do Brasil ®
Guaiba 2026/05
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