quarta-feira, 15 de abril de 2026

UMA FRUTA CHAMADA BUNDA


     UMA FRUTA CHAMADA BUNDA 

     As frutas têm sabores especiais e próprios. 
     Cada tipo de fruta eu comparo a um tipo de mulher. 
     Todas são gostosas e apetitosas, só depende da ocasião, do extrato bancário e do nível de desespero.
     As peras, por exemplo, parecem uma jovem menina, imatura, curiosa e perigosa. 
     Seu sabor tem gosto do pecado inconsequente e de boletim de ocorrência, mordida errada e tu explica pro delegado por que tá chupando fruta de menor.
     A maçã é uma fruta que parece-me uma mulher sensual e pecadora, até na criação do mundo ela mostrou sua outra face, causou demissão em massa do Paraíso e ainda botou a culpa na cobra. 
     Este magnífico fruto parece-me uma jovem mulher a descobrir e a ensinar volúpias, com pós-graduação em sociologia.
     A melancia, calma e misteriosa em seu semblante verde sereno, mas em seu interior jorrando o vermelho pecado, parece-me uma mulher devassa e insaciável na casa dos quarenta. 
     Atende ligação, resolve B.O. do filho e ainda pergunta se tu quer com ou sem semente. 
Experiência é tudo.
     As uvas fazem-me lembrar jovens executivas bem-sucedidas, que em fim de semana saem em busca de prazeres e aventuras. Gostam de uma boa sacanagem e de serem sorvidas uma a uma, languidamente, entre um gole de espumante e uma live de coach quântico.
     Existem outras frutas que são que nem aquelas mulheres, sérias e retraídas. 
     A fruta-do-conde é um exemplo claro, desconfiada e difícil de ser colhida neste pomar dos prazeres,desconhecida para alguns, tese de mestrado para outros, tem que marcar hora, levar currículo e passar por entrevista com RH.
     Outras são de difícil acesso, quase que intocáveis por natureza, mas quando conseguido se vê que são de um gosto inigualável e afrodisíaco, como a manga. 
     Se tu chupar manga de camisa branca, tu assume o risco. 
Se chupar na praia, vira influencer,se chupar no ônibus, vira inimigo público n°1.
     A acerolai parece aquela mulher cheia de pelinhos por fora e doce por dentro, exige luva, atenção e coragem, tu tem que descasca-la com paciencia, mas depois que prova entende por que o pessoal insiste, é a fruta com curso de defesa pessoal incluso.
     A bergamota é a gringa intercambista, cascuda, ácida, exótica. 
     Chega falando que faz meditação e que tu tem energia pesada, no final tu descobre que ela é doce, mas já gastou teus cartão e tua paciência traduzindo sentimento.
     A jaca é a tia gorda, pois além de escandalosa é cheirosa a dez quadras, seu riso alimenta o bairro inteiro e ainda sobra pra levar marmita, Jaca é evento de sábado a noite.
     E a jabuticaba então. Esta patricinha das redes sociais, bonita, roxinha de vergonha, e por sinal bastante fotogênica, mas se tu não comer em dois dias azeda, cria mofo e te dá prejuízo, vive de aparência e refrigeração. 
É suculenta na intimidade mas péssima no relacionamento longo.
     Enfim, são tantas as frutas com sabores e aparências tão diversas que é difícil enumerá-las todas num simples rascunho deste cotidiano diário. 
     Neste universo inexorável, povoado de tantos seres estranhos, onde a imaginação atravessa fronteiras e funde-se com a realidade, existe uma fruta que é muito apreciada pelos homens, “é a fruta chamada bunda”.
     A fruta chamada bunda é particularmente iguail umas às outras, dois volumosos gomos exibem uma pele sedosa e macia como a pele do pêssego, mas com formas e cores variadas.   
     Existem aquelas bundas tagarelas que não param de falar, tipo bunda Iphone, bunda Android, bunda Nokia tijolão de 2003”.
     Existem bundas róseas angelicais, quase isentas de pecado, este tipo anatômico deve ser sorvido com muita calma e cuidado, com termo de responsabilidade, testemunha e padre de plantão, se tu morder sem benzer, dá sete anos de azar no amor.
     As cor de cuia são misteriosas e convidativas, sempre prontas a saciarem a fome do sedento viajante que as procura, elas vem com chimarrão, cobertor e conselho: “— Sorve-ne, guri, mas reza antes”.
     As bundas pálidas da cor da lua cheia, ou iguais às claras de ovos, são muito tímidas, mas depois de sorvidas perdem o controle e entram em ebulição, viram labaredas em dia de jogo, começam tímida e terminam sambando em cima da mesa.
     As escuras, iguais noite sem luar, são frutas devassas e profanas, devem ser sorvidas com muito frenesi e ardor, sem medo de ser feliz.. 
     Enfim, existe uma gama de formas e cores de bundas, todas apetitosas para nosso variado paladar. 
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     Eu, particularmente, gosto de bundas arrebitadas e compactas, não importa a cor. 
Seu sabor eu defino de acordo com o momento e ocasião. 
     Não pode ser muito jovem, por ser perigosa que nem pera verde: dá cadeia, processo e manchete no jornal. 
     E nem muito madura por causa de futuras complicações, às vezes ocorridas devido a incidentes de percurso tipo marido ex-lutador de MMA, filho de delegado ou dono de desmancheou ou boca de fumo.
     Esta exótica fruta para mim tem que ser que nem a maçã: macia, polpuda. 
Este tipo de fruta gosto de tocar suavemente e saboreá-la delicadamente, sem medo das consequências futuras, mas com advogado de sobreaviso.
     Estas frutas às vezes são comidas em locais definidos. 
     Geralmente são que nem bergamotas: sempre tem alguém querendo um gomo também, e o gomo do vizinho sempre parece mais doce, mais suculento, com menos fiapo. 
     Tem aquelas que se compra ocasionalmente, esta fruta tem sabor de perigo e apreensão, estas são que nem laranja, difíceis de descascar, vêm com casca grossa, alvará e taxa, mas depois de descascada... Ah, depois de descascada tu entende por que o pessoal paga motel por hora.
     Outras bundas são que nem as executivas uvas, são as de fim de semana casuais, regadas a vinho e luxúria, sempre prontas a um prazer degenerado, de preferência em grupos, com planilha de Excel e ponto eletrônico. 
     Tem outras que são que nem melancias, quarentonas cativantes, sempre dispostas a se doarem, principalmente a alguém faminto e com problema de coluna, sustenta, cuida e ainda leva no médico,é fruta com SAC.
     E existe aquela bunda parecida com a maçã, sedosa, aveludada, macia e prometedora de sabores e prazeres inimagináveis. 
     Esta deve ser degustada num ambiente calmo e particular... com ar-condicionado, lençol de 800 fios.
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     São tantas as frutas apetitosas neste nosso universo íntimo de gostos e prazeres diversos que é realmente difícil enumerá-las e descrevê-las num simples rascunho deste nosso cotidiano diário, porém tem uma que se destaca: é a fruta chamada bunda.

*J.L. Borges do Brasil ®
Guaiba 2003/11


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