FÁBULA DO CORNO MANSO
Era uma vez...
Assim poderia começar este drama de amor, traição e desespero; porém começa assim: com duas malas, uma chave que não entra e um detetive comedor de pastel.
Depois de um dia exaustivo na repartição pública onde trabalha, Cornélio chega em casa.
Seu dia, como de costume, transcorreu em sua rotineira normalidade: um amasso na faxineira, uma bolinada na ascensorista, culminando com uma secção de beijos no canhote da secretaria entre o carimbo e o café requentado.
O final do dia seria como todos os finais de dias na vida de Cornélio, se não fossem as duas malas estáticas à sua espera em frente à porta do apartamento, parecendo dois cães de guarda sem latido.
Desconcertado, ele tentou abrir a porta, a chave não entra na fechadura. “— O quê será que aconteceu?” Pensa ele, bate na porta e um sonoro “chispa daqui!” retumba de dentro do apartamento, acompanhado de um barulho de vidro quebrando e de um papagaio gritando: “— Corno! Corno!”
Confuso, ele pensa o que aconteceu, pensa e conclui: “— A Dadinha descobriu algo. Talvez as sacanagens na repartição, ou minhas escapadas à casa da Mônica regadas a cervejas, uísques e strip-tease com ventilador de teto”.
“— Bem feito”, pensa com seus botões. “Quem mandou eu trair aquela maravilhosa criatura, sempre me adulando, me fazendo chamego e com um ciúme contagiante de mim”.
Cabisbaixo, com o peso da consciência pesando sua cabeça, já meia rala pela flor do tempo, pega suas malas e, em passos de chumbo, parte rumo ao desconhecido que tornou-se de repente a rua do seu bairro.
Enquanto isso, três quadras acima, o Detetive Arquimedes Fofoca mascava um pastel de vento e anotava num caderninho sebento: “Caso Dadinha x Cornélio. Objeto: par de chifres. Status: mútuo. Honorários: pagos adiantado pela própria vítima”.
Fofoca era o único detetive da cidade especializado em adultério consentido, traição quântica e galho metafísico, tinha sido contratado pela Dadinha há duas semanas, quando ela desconfiou que o marido estava sendo traído por ela mesma.
Cornélio caminha em passos trôpegos, até parece que tomou um garrafão de cachaça falsificada de Santo Antônio, chega no terceiro bar que encontra, não chegou nos dois primeiros porque poderia encontrar conhecidos da redondeza, e ele não queria partilhar com ninguém a sua desgraça, pede ao garçom para colocar um CD de Gardel e lhe servir uma dose dupla, não; tripla de Green Valley. Blue Label nem pensar, fim de mês é dureza total, e neste bar com atmosfera Argentina, ele pensa na tanga da mulher e suspira.
Na mesa do canto, Dona Cassandra, a vidente do bairro, lia o futuro em uma borra de café.viu Cornélio entrar e já sentenciou:
“— Esse aí vai tentar se matar de desgosto, mas o coitado nem sabe que é corno desde 1997”.
Cassandra era cliente antiga do Detetive Fofoca e trocava informações por consulta grátis.
Depois da quarta dose tripla, Cornélio paga o garçom e sai com suas duas malas carregadas de roupas e desesperança, no bolso, um bilhete que Dadinha enfiou na mala: “Se for pra morrer, morre longe das minhas margaridas”.
Depois de pensar e descansar num banco solitário de uma praça qualquer — imaginamos talvez a praça Guia Lopes — pega um táxi e ruma para a rodoviária. “— É isso aí, vou pra Tapes”, pensa ele. Lá vou ficar o fim de semana na casa do irmão, para refletir e pensar o que fazer da vida, vida que sem Dadinha não dá, não dá...
Chega à rodoviária, desce do táxi, olha à sua esquerda e a passarela parece que está lhe chamando... Lhe chamando, num repente muda de ideia e pensa:
“— Por que partir para um lugar que brevemente ne fará voltar para esta vida fútil sem Dadinha, se pode posso partir para outro lugar desconhecido e eterno, sem mulheres, sem vinho e fim...”
Decidido, sobe na mureta da passarela, quando se prepara para saltar rumo ao vazio, ouve um grito: “— Pare!” Olha ao lado e vê o Detetive Arquimedes Fofoca, de pastel na mão e caderninho na outra, que casualmente estava de passagem, na hora errada, num lugar incerto e no momento certo.
Com calma, o detetive tenta persuadir Cornélio a não fazer semelhante loucura, conversa vai, conversa vem e nada do infeliz desistir do insano e trágico ato, até que Farofa tem uma ideia:
“— Cornélio, quem sabe eu ligo para a Dadinha, tu promete não se jogar até ela vir, promete? E de quebra eu te conto quem botou o primeiro chifre em quem.
O infeliz concorda, Fofoca liga para Dadinha e pede para ela levar o papagaio como testemunha, em seguida manda mensagem para Dona Cassandra para ela participar daquele ato de quinta categoria de teatro fuleiro.
Meia hora depois lá estão as convidadas, e Dadinha, apavorada e arrependida, com o papagaio no ombro gritando, que grita “— Falsa! Falsa!”
Ela fala melosamente:
“— Benzinho, não faz isso, tu talvez não saiba amor, mas eu te coloquei um par de chifres, não um par de asas, desce daí, senão tu vai cair de ponta cabeça e furar o teto de algum carro lá embaixo, desce daí meu bem que eu te deixo voltar pra casa e de agora em diante vou ser só sua Dadinha e de mais ninguém.”
Dona Cassandra em lágrimas completa, lendo a borra que trouxe num copo: e diz:
“--Vejo milhares de galhos à redor de vocês dois, “com certeza comprarão algum sitio com muitas e muitas árvores e muita cabeça de gado também”.
Cornélio pensa, pensa e aceita a proposta da mulher, afinal ele era corno e não sabia, e ela é corna e talvez não saiba, melhor viverem juntos, do que ele morto e ela livre por aí a dar com pau.
O Detetive Fofoca carimba o caso como “solucionado com galhada recíproca” e cobra só meia taxa porque teve final feliz.
E os quatro viveram felizes por muitos e muitos anos de suas galhadas vidas: Cornélio e Dadinha no regime utópico de traição autorizada às terças e quintas; detetive Fofoca casou com a vidente Cassandra, virou síndico do prédio e abriu uma agência chamada “Investigações Conjugais & adivinhações Ltda”.
É claro que de vez em quando Cornélio e Dadinha davam suas escapadinhas para não perderem o costume, e como o ditado diz, cachorro comedor de ovelha só matando.
*J.L. Borges do Brasil ®
Guaiba 2004/09
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