quinta-feira, 16 de abril de 2026

O RUÍDO


O RUÍDO

O mal adora o ruido pelo fato do ruido deixar as pessoas mentalmente confusas.

J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/03

PREOCUPAÇÃO ZERO


PREOCUPAÇÃO ZERO

Não se preocupe em demasia para não perder horas de sono, esta perda não é como a de um objeto qualquer que você acaba achando e assim o recupera, as horas perdidas de sono são irrecuperáveis e fazem mal ao corpo e a mente.

*J.L.Borges.do Brasil 
*Guaiba 2026/03

O PIOR DOS LADRÕES


O PIOR DOS LADRÕES 

O pior dos ladrões não é aquele que te rouba furtivamente, mas sim aquele que rouba tua confiança. 

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/03

MURAL DE NOSSA EXISTÊNCIA


O MURAL DE NOSSA EXISTÊNCIA

A vida é composta de pequenos fragmentos como se fossem pedras brutas e outros lindos cristais, devemos colá-los diariamente para no final termos um belo mural de nossa existência. 

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/03

O EU REAL E O EU ILUSÓRIO


O EU REAL E O EU ILUSÓRIO

Existem dois eus dentro de nós, o eu real e o eu ilusório, olhando por este prisma constato que eu sou realidade e tudo ao meu redor é ilusão .

*J.L.Borges.do Brasil ®
Guaiba 2026/03

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A FÁBULA DO CORNO MANSO



     FÁBULA DO CORNO MANSO 

     Era uma vez...  
     Assim poderia começar este drama de amor, traição e desespero; porém começa assim: com duas malas, uma chave que não entra e um detetive comedor de pastel.
     Depois de um dia exaustivo na repartição pública onde trabalha, Cornélio chega em casa. 
     Seu dia, como de costume, transcorreu em sua rotineira normalidade: um amasso na faxineira, uma bolinada na ascensorista, culminando com uma secção de beijos no canhote da secretaria entre o carimbo e o café requentado.
     O final do dia seria como todos os finais de dias na vida de Cornélio, se não fossem as duas malas estáticas à sua espera em frente à porta do apartamento, parecendo dois cães de guarda sem latido.
     Desconcertado, ele tentou abrir a porta, a chave não entra na fechadura. “— O quê será que aconteceu?” Pensa ele, bate na porta e um sonoro “chispa daqui!” retumba de dentro do apartamento, acompanhado de um barulho de vidro quebrando e de um papagaio gritando: “— Corno! Corno!”
     Confuso, ele pensa o que aconteceu, pensa e conclui: “— A Dadinha descobriu algo. Talvez as sacanagens na repartição, ou minhas escapadas à casa da Mônica regadas a cervejas, uísques e strip-tease com ventilador de teto”.
     “— Bem feito”, pensa com seus botões. “Quem mandou eu trair aquela maravilhosa criatura, sempre me adulando, me fazendo chamego e com um ciúme contagiante de mim”.
     Cabisbaixo, com o peso da consciência pesando sua cabeça, já meia rala pela flor do tempo, pega suas malas e, em passos de chumbo, parte rumo ao desconhecido que tornou-se de repente a rua do seu bairro.
     Enquanto isso, três quadras acima, o Detetive Arquimedes Fofoca mascava um pastel de vento e anotava num caderninho sebento: “Caso Dadinha x Cornélio. Objeto: par de chifres. Status: mútuo. Honorários: pagos adiantado pela própria vítima”.   
     Fofoca era o único detetive da cidade especializado em adultério consentido, traição quântica e galho metafísico, tinha sido contratado pela Dadinha há duas semanas, quando ela desconfiou que o marido estava sendo traído por ela mesma.
     Cornélio caminha em passos trôpegos, até parece que tomou um garrafão de cachaça falsificada de Santo Antônio, chega no terceiro bar que encontra, não chegou nos dois primeiros porque poderia encontrar conhecidos da redondeza, e ele não queria partilhar com ninguém a sua desgraça, pede ao garçom para colocar um CD de Gardel e lhe servir uma dose dupla, não; tripla de Green Valley. Blue Label nem pensar, fim de mês é dureza total, e neste bar com atmosfera Argentina, ele pensa na tanga da mulher e suspira.
     Na mesa do canto, Dona Cassandra, a vidente do bairro, lia o futuro em uma borra de café.viu Cornélio entrar e já sentenciou:      
     “— Esse aí vai tentar se matar de desgosto, mas o coitado nem sabe que é corno desde 1997”.   
     Cassandra era cliente antiga do Detetive Fofoca e trocava informações por consulta grátis.
     Depois da quarta dose tripla, Cornélio paga o garçom e sai com suas duas malas carregadas de roupas e desesperança, no bolso, um bilhete que Dadinha enfiou na mala: “Se for pra morrer, morre longe das minhas margaridas”.
     Depois de pensar e descansar num banco solitário de uma praça qualquer — imaginamos talvez a praça Guia Lopes — pega um táxi e ruma para a rodoviária. “— É isso aí, vou pra Tapes”, pensa ele. Lá vou ficar o fim de semana na casa do irmão, para refletir e pensar o que fazer da vida, vida que sem Dadinha não dá, não dá...
     Chega à rodoviária, desce do táxi, olha à sua esquerda e a passarela parece que está lhe chamando... Lhe chamando, num repente muda de ideia e pensa:      
     “— Por que partir para um lugar que brevemente ne fará voltar para esta vida fútil sem Dadinha, se pode posso partir para outro lugar desconhecido e eterno, sem mulheres, sem vinho e fim...”
     Decidido, sobe na mureta da passarela, quando se prepara para saltar rumo ao vazio, ouve um grito: “— Pare!” Olha ao lado e vê o Detetive Arquimedes Fofoca, de pastel na mão e caderninho na outra, que casualmente estava de passagem, na hora errada, num lugar incerto e no momento certo.
     Com calma, o detetive tenta persuadir Cornélio a não fazer semelhante loucura, conversa vai, conversa vem e nada do infeliz desistir do insano e trágico ato, até que Farofa tem uma ideia: 
     “— Cornélio, quem sabe eu ligo para a Dadinha, tu promete não se jogar até ela vir, promete? E de quebra eu te conto quem botou o primeiro chifre em quem. 
     O infeliz concorda, Fofoca liga para Dadinha e pede para ela levar o papagaio como testemunha, em seguida manda mensagem para Dona Cassandra para ela participar daquele ato de quinta categoria de teatro fuleiro.
      Meia hora depois lá estão as convidadas, e Dadinha, apavorada e arrependida, com o papagaio no ombro gritando, que grita “— Falsa! Falsa!”
     Ela fala melosamente:
      “— Benzinho, não faz isso, tu talvez não saiba amor, mas eu te coloquei um par de chifres, não um par de asas, desce daí, senão tu vai cair de ponta cabeça e furar o teto de algum carro lá embaixo, desce daí meu bem que eu te deixo voltar pra casa e de agora em diante vou ser só sua Dadinha e de mais ninguém.”
     Dona Cassandra em lágrimas completa, lendo a borra que trouxe num copo: e diz:
     “--Vejo milhares de galhos à redor de vocês dois, “com certeza comprarão algum sitio com muitas e muitas árvores e muita cabeça de gado também”. 
     Cornélio pensa, pensa e aceita a proposta da mulher, afinal ele era corno e não sabia, e ela é corna e talvez não saiba, melhor viverem juntos, do que ele morto e ela livre por aí a dar com pau. 
     O Detetive Fofoca carimba o caso como “solucionado com galhada recíproca” e cobra só meia taxa porque teve final feliz.
     E os quatro viveram felizes por muitos e muitos anos de suas galhadas vidas: Cornélio e Dadinha no regime utópico de traição autorizada às terças e quintas; detetive Fofoca casou com a vidente Cassandra, virou síndico do prédio e abriu uma agência chamada “Investigações Conjugais & adivinhações Ltda”.
     É claro que de vez em quando Cornélio e Dadinha davam suas escapadinhas para não perderem o costume, e como o ditado diz, cachorro comedor de ovelha só matando. 
*J.L. Borges do Brasil ®
Guaiba 2004/09



UMA FRUTA CHAMADA BUNDA


     UMA FRUTA CHAMADA BUNDA 

     As frutas têm sabores especiais e próprios. 
     Cada tipo de fruta eu comparo a um tipo de mulher. 
     Todas são gostosas e apetitosas, só depende da ocasião, do extrato bancário e do nível de desespero.
     As peras, por exemplo, parecem uma jovem menina, imatura, curiosa e perigosa. 
     Seu sabor tem gosto do pecado inconsequente e de boletim de ocorrência, mordida errada e tu explica pro delegado por que tá chupando fruta de menor.
     A maçã é uma fruta que parece-me uma mulher sensual e pecadora, até na criação do mundo ela mostrou sua outra face, causou demissão em massa do Paraíso e ainda botou a culpa na cobra. 
     Este magnífico fruto parece-me uma jovem mulher a descobrir e a ensinar volúpias, com pós-graduação em sociologia.
     A melancia, calma e misteriosa em seu semblante verde sereno, mas em seu interior jorrando o vermelho pecado, parece-me uma mulher devassa e insaciável na casa dos quarenta. 
     Atende ligação, resolve B.O. do filho e ainda pergunta se tu quer com ou sem semente. 
Experiência é tudo.
     As uvas fazem-me lembrar jovens executivas bem-sucedidas, que em fim de semana saem em busca de prazeres e aventuras. Gostam de uma boa sacanagem e de serem sorvidas uma a uma, languidamente, entre um gole de espumante e uma live de coach quântico.
     Existem outras frutas que são que nem aquelas mulheres, sérias e retraídas. 
     A fruta-do-conde é um exemplo claro, desconfiada e difícil de ser colhida neste pomar dos prazeres,desconhecida para alguns, tese de mestrado para outros, tem que marcar hora, levar currículo e passar por entrevista com RH.
     Outras são de difícil acesso, quase que intocáveis por natureza, mas quando conseguido se vê que são de um gosto inigualável e afrodisíaco, como a manga. 
     Se tu chupar manga de camisa branca, tu assume o risco. 
Se chupar na praia, vira influencer,se chupar no ônibus, vira inimigo público n°1.
     A acerolai parece aquela mulher cheia de pelinhos por fora e doce por dentro, exige luva, atenção e coragem, tu tem que descasca-la com paciencia, mas depois que prova entende por que o pessoal insiste, é a fruta com curso de defesa pessoal incluso.
     A bergamota é a gringa intercambista, cascuda, ácida, exótica. 
     Chega falando que faz meditação e que tu tem energia pesada, no final tu descobre que ela é doce, mas já gastou teus cartão e tua paciência traduzindo sentimento.
     A jaca é a tia gorda, pois além de escandalosa é cheirosa a dez quadras, seu riso alimenta o bairro inteiro e ainda sobra pra levar marmita, Jaca é evento de sábado a noite.
     E a jabuticaba então. Esta patricinha das redes sociais, bonita, roxinha de vergonha, e por sinal bastante fotogênica, mas se tu não comer em dois dias azeda, cria mofo e te dá prejuízo, vive de aparência e refrigeração. 
É suculenta na intimidade mas péssima no relacionamento longo.
     Enfim, são tantas as frutas com sabores e aparências tão diversas que é difícil enumerá-las todas num simples rascunho deste cotidiano diário. 
     Neste universo inexorável, povoado de tantos seres estranhos, onde a imaginação atravessa fronteiras e funde-se com a realidade, existe uma fruta que é muito apreciada pelos homens, “é a fruta chamada bunda”.
     A fruta chamada bunda é particularmente iguail umas às outras, dois volumosos gomos exibem uma pele sedosa e macia como a pele do pêssego, mas com formas e cores variadas.   
     Existem aquelas bundas tagarelas que não param de falar, tipo bunda Iphone, bunda Android, bunda Nokia tijolão de 2003”.
     Existem bundas róseas angelicais, quase isentas de pecado, este tipo anatômico deve ser sorvido com muita calma e cuidado, com termo de responsabilidade, testemunha e padre de plantão, se tu morder sem benzer, dá sete anos de azar no amor.
     As cor de cuia são misteriosas e convidativas, sempre prontas a saciarem a fome do sedento viajante que as procura, elas vem com chimarrão, cobertor e conselho: “— Sorve-ne, guri, mas reza antes”.
     As bundas pálidas da cor da lua cheia, ou iguais às claras de ovos, são muito tímidas, mas depois de sorvidas perdem o controle e entram em ebulição, viram labaredas em dia de jogo, começam tímida e terminam sambando em cima da mesa.
     As escuras, iguais noite sem luar, são frutas devassas e profanas, devem ser sorvidas com muito frenesi e ardor, sem medo de ser feliz.. 
     Enfim, existe uma gama de formas e cores de bundas, todas apetitosas para nosso variado paladar. 
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     Eu, particularmente, gosto de bundas arrebitadas e compactas, não importa a cor. 
Seu sabor eu defino de acordo com o momento e ocasião. 
     Não pode ser muito jovem, por ser perigosa que nem pera verde: dá cadeia, processo e manchete no jornal. 
     E nem muito madura por causa de futuras complicações, às vezes ocorridas devido a incidentes de percurso tipo marido ex-lutador de MMA, filho de delegado ou dono de desmancheou ou boca de fumo.
     Esta exótica fruta para mim tem que ser que nem a maçã: macia, polpuda. 
Este tipo de fruta gosto de tocar suavemente e saboreá-la delicadamente, sem medo das consequências futuras, mas com advogado de sobreaviso.
     Estas frutas às vezes são comidas em locais definidos. 
     Geralmente são que nem bergamotas: sempre tem alguém querendo um gomo também, e o gomo do vizinho sempre parece mais doce, mais suculento, com menos fiapo. 
     Tem aquelas que se compra ocasionalmente, esta fruta tem sabor de perigo e apreensão, estas são que nem laranja, difíceis de descascar, vêm com casca grossa, alvará e taxa, mas depois de descascada... Ah, depois de descascada tu entende por que o pessoal paga motel por hora.
     Outras bundas são que nem as executivas uvas, são as de fim de semana casuais, regadas a vinho e luxúria, sempre prontas a um prazer degenerado, de preferência em grupos, com planilha de Excel e ponto eletrônico. 
     Tem outras que são que nem melancias, quarentonas cativantes, sempre dispostas a se doarem, principalmente a alguém faminto e com problema de coluna, sustenta, cuida e ainda leva no médico,é fruta com SAC.
     E existe aquela bunda parecida com a maçã, sedosa, aveludada, macia e prometedora de sabores e prazeres inimagináveis. 
     Esta deve ser degustada num ambiente calmo e particular... com ar-condicionado, lençol de 800 fios.
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     São tantas as frutas apetitosas neste nosso universo íntimo de gostos e prazeres diversos que é realmente difícil enumerá-las e descrevê-las num simples rascunho deste nosso cotidiano diário, porém tem uma que se destaca: é a fruta chamada bunda.

*J.L. Borges do Brasil ®
Guaiba 2003/11