AGUAS DE OUTONO
Não tenho inspiração para te amar,
Nem para recitar versos de amor;
Toda minha ternura perdeu-se com a chuva,
Que anunciou outonos e depois partiu.
Não te vejo mais nem mesmo em meus sonhos,
Não te beijo mais e nem falo contigo;
Tudo perdeu-se, foi embora,
Até aqueles sonhos que tinha a teu lado.
Triste a despedida sem dizer-te adeus,
Olhos rasos dagua que nunca choramos;
Não dissemos nada, nem mesmo até logo,
E esta lacuna calou o coração.
Agora que o amor partiu me dei conta,
Que a voz dos sonhos é alta e dói demais;
O silencio que vem e penetra neste quarto,
Me faz te ouvir distante, mas não te alcanço mais.
Assim eu vou seguindo, distante de ti,
Sem ter inspiração para recitar meus versos;
Até aquele amor que eu tinha foi embora,
Com a chuva que partiu, deixando o outono triste.
*J.L.BORGES
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