quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

NADA

NADA

Existem tantas desventuras nesta vida triste,

Portas abertas mostrando o erro novamente;

Uma canção fúnebre, uma voz que insiste,

Em dizer que ainda somos apenas gente.

Eu teimo em cair, e outra vez caio,

Levanto-me pois não me arrependo em ser teimoso;

Não temo a chuva que cai e nem seu raio,

Na ventura do relâmpago eu sou o gozo.

Não sou trovão, sou apenas pó,

Talvez eu seja na manhã o orvalho;

Nas desventuras do caminhar eu vivo só,

Sou relva frágil, eu não sou carvalho.

Eu nada fiz e nem construí  nesta vida desencantada,

Neste universo eu nada peço e nem consigo;

Sou indigente a cambalear nesta longa estrada,

Sem ganhar absolutamente nada, nem mesmo um só sorriso.

Não tenho amores, nada nesta vida,

Nem um singelo amigo eu posso ter;

Talvez eu ainda posso nesta desgraçada vida,

Aprender a formula de saber morrer.

A morte é o que agora me importa,

O basta é seu ponto final;

Talvez neste caminho incerto até tenha uma porta,

A mostrar-me outro caminho inicial.

*J.L.BORGES
1990

Nenhum comentário:

Postar um comentário