NADA
Existem tantas desventuras nesta vida triste,
Portas abertas mostrando o erro novamente;
Uma canção fúnebre, uma voz que insiste,
Em dizer que ainda somos apenas gente.
Eu teimo em cair, e outra vez caio,
Levanto-me pois não me arrependo em ser teimoso;
Não temo a chuva que cai e nem seu raio,
Na ventura do relâmpago eu sou o gozo.
Não sou trovão, sou apenas pó,
Talvez eu seja na manhã o orvalho;
Nas desventuras do caminhar eu vivo só,
Sou relva frágil, eu não sou carvalho.
Eu nada fiz e nem construí nesta vida desencantada,
Neste universo eu nada peço e nem consigo;
Sou indigente a cambalear nesta longa estrada,
Sem ganhar absolutamente nada, nem mesmo um só sorriso.
Não tenho amores, nada nesta vida,
Nem um singelo amigo eu posso ter;
Talvez eu ainda posso nesta desgraçada vida,
Aprender a formula de saber morrer.
A morte é o que agora me importa,
O basta é seu ponto final;
Talvez neste caminho incerto até tenha uma porta,
A mostrar-me outro caminho inicial.
*J.L.BORGES
1990
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