sexta-feira, 9 de março de 2018

A CAMURÇA DO ESTANCEIRO(...)

A CAMURÇA DO ESTANCEIRO

                  Numa estância no extremo sul do estado, vive seu Juvenal, um estancieiro cheio de mania e esquisitice, traduzindo, para a linguagem clássica, era um legitimo excêntrico, na concepção da palavra.
                  Na sua infância colecionava de tudo, desde tampinhas de garrafas a carteiras de cigarros; foi crescendo e sofisticando esta mania, selos, moedas, livros antigos; tudo o que lhe chamava a atenção.
                  Depois de herdar a estância de seu pai, suas manias ficaram faraônicas, num certo tempo sua coleção foi de árvores exóticas, de difícil adaptação ao nosso clima, por serem proveniente da Europa, eram árvores e plantas como o Abeto vermelho, o Zimbro, Bétula, Faia, Estrela-Alpina, Aloé,enfim, tudo o que ele podia importar da Europa e contrabandear via Uruguai, porem este passatempo não deu certo.
                  Depois de tentar outras excentricidades, começou a criar animais, também provenientes da Europa, tinha uma cisma por este continente, pois quando moço andou estudando em Paris, e voltou de lá um pouquito culto. E assim começou a importar animais da fauna européia via Uruguai é claro; primeiro uma Doninha, depois um Urogalo, em seguida um Glutão, um Flamingo, um Texudo; enfim uma gama de animais desconhecidos, aqui no sul; todos de final infeliz e também para a infelicidade dos empregados imbuídos da tarefa de cuidar deste animais desconhecidos a eles.
                  O ultimo xodó do estancieiro era uma Camurça que ele conseguiu de modo elícito; graças a um amigo italiano que estava de passagem por Montevidéu.
                  Toda a pessoa que visitava o estancieiro tinha que apreciar sua recente aquisição, dava mais valor para a Camurça que para o casal de Mussaranho que devido a falta de adaptação não resistiu a este meio ambiente tão adverso a ele, o desaparecimento daquele animal custou o emprego do Zé Bodinho.
                  Aquele infeliz já era o sexto a ser despedido naquele ano, devido a teimosia do homem de não admitir tais noticias da boca de seus empregados, achava que ele é que estava certo e só ele poderia admitir as adversidades que ocorriam a seus animais, e nunca os outros, principalmente os peões, e todos é claro, que foram despedidos ousaram relatar o passamento dos animais de seu patrão, e assim o pavor tomava conta de todos os que eram incumbidos dos cuidados dos bichinhos de estimação do estancieiro.
                  Tudo transcorria bem na estância de seu Juvenal, até que um dia a Camurça cujo os cuidados era do Chico cana, começou a dar sinais de fraqueza e para desespero do infeliz, foi definhando e veio a tombar mortalmente sob a sombra de uma velha figueira, por sinal nativa, ao contrario da falecida defunta.
                  E gora o que fazer para não perder o emprego, pensa o peão, depois de uma garrafa de cana veio a esplendida idéia, e saltitante, ou melhor cambaleante o peão chega ao patrão, chapéu na mão, meio sestroso.
                  Desconfiado o patrão lhe pergunta:
                  -E ai homem, que te traz aqui?
                  -Nada patrão, é que eu tava dando dois dedos de prosa com o Teço...
                  -Ah bom, mas diga vivente, já que tu ta por aqui, como esta a minha Camurcinha, ta cuidando bem dela?
                  -Ta uma maravilha patrão, agorinha mesmo eu a vi deitada embaixo do figueirão lá nos fundos, ta gorda que é uma belesura,, até parece inchaço, o que mais me surpreende foram aquelas moscas azuis, entrando pela boca e saindo pela bunda, entrando pela bunda e saindo pela boca...
                  -Mas vivente, então quer dizer que ela ta morta...
                  -Olha patrão, se ta morta é o senhor que ta dizendo e se o senhor diz, ta dito, não existe ninguém que discorde da sua afirmação.
                  E sai apressadamente da presença do atônito estancieiro, o pateo crivado de peões já antevendo o final da conversa dos dois e lasca esta.
                  -Olá pessoal!o patrão acabou de me falar do falecimento da Camurça.
                  E se afasta a procura de uma pá para dar sumiço na defunta.
                  Foi assim usando esta astúcia simples que Chico cana escapou de ir para o olho da rua.
                  O excêntrico estancieiro desistiu de suas criações exóticas do velho continente, agora a sua preferência e por macacos brasileiros, acabou de adquirir um casal de macaco-aranha.

 *J.L.BORGES


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