quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O AMIGO E O CÃO

O AMIGO E O CÃO

Mãos que afagam sonhos,

E que sem cobrar afagam-te;

O olhar do amigo são os olhos do cão,

Que lambe teus pés e lambe tuas mãos.

A sereia dos sonhos inspira canções,

Sem violão e sem flauta de pan;

Trazendo a lembrança do amigo e do cão,

Naquele que vê a alma da gente.

Neste dia de luz só as trevas conseguem,

No vácuo imenso uma ponta de luz;

Se sou o incerto tu és esta cruz,

Carregando a primavera nalgum sonho perdido

Serei o amigo ou um cão vagabundo?

Um vilão vagabundo na face da terra.

Sem verão ou inverno represando esta fera,

Te levando comigo esquecido amigo.

Mãos que afagam no rosto o desgosto de alguém,

Que me leva o presente e te traz o futuro;

O escuro de uma vida que se vai e que vem,

Me trazendo o gosto que tanto procuro.

*J.L.BORGES

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