NADA
Se ontem fui avenida,
Hoje sou uma viela;
Nesta vida adormecida,
Vida frágil, vida bela.
Se ontem fui bairro honorável,
Hoje sou uma favela;
Sou desta vida incansável,
O cupim numa janela.
Já fui lâmpada fluorescente,
Hoje apenas sou lampião;
Nesta vida indecente,
Do mendigo nem sou pão.
Já fui sol brilhando céus,
Nestas noivas madrugadas;
Hoje sou roto chapéu,
Quase nada...nada...nada...
*J.L.BORGES
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