terça-feira, 23 de janeiro de 2018

FIM DO INICIO

FIM DO INICIO

Te pergunto amor, até quando?

São tantas brigas miúdas e intrigas,

É uma guerra que não tem final.

Neste jogo nosso inferno é eterno,

Ninguém ganha neste jogo terminal;

Nossas fichas já estão no fim,

Nos fazendo simplesmente mal.

Já não sinto o gosto de teus beijos,

Que diariamente torturam minha boca,

Teus abraços esmagam-me arrasam-me,

São correntes ardentes em fogo lento

Que no gozo da noite acendem-me o desejo.

Este amor é uma doença sem cura,

Esta dor é uma imensa loucura,

Intensa a contaminar-me,

É uma felpa rasgando o coração,

Na procura do sim e do não,

Procura que jamais termina.

Mesmo assim todas as noites eu a quero,

Com a alma entrecortada a espero,

E na cama de prego endurecem as manchas,

Da nossa vergonha em brancos lençóis.

Se teus beijos ferem-me, também alimentam,

Serão frutos de mandrágora ou girassóis?

Eu nunca sei, mas sei bem que atormentam,

São algemas de fogo, e tu a minha algoz.

Sei também que algum dia isso acabará,

Este barco de papel que aqui navega,

É a falsa tabua da verdade e da razão,

Onde esta vida ingrata só diz não,

Para a vida que também tudo me nega.

*J.L.BORGES
1994

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