quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

METAMORFOSE

METAMORFOSE

Os dedos que me fazem aconchego,
São os mesmos que detonam o revolver,
E seguram a adaga.
A mão que aperta minha mão,
É a mesma que esmurra minha cara.

A boca que beija minha boca,
É a mesma boca que me escarra.

A voz a me dizer baixinho,
Palavras de amor e de promessas;
É a mesma que no auge da ira,
Me fere e me ofende sem piedade.

O corpo fecundo a onde me perco,
É o mesmo a onde me acho;
E os mil labirintos dos doces momentos,
Transformam-se por encanto,
Em verdejantes pradarias.

Tudo transforma-se no cotidiano desta vida,
E, igual a metamorfose interminável da borboleta,
Teu casulo sou eu, apenas eu,
E tu és certamente minha crisálida.

 *J.L.BORGES
Cachoeirinha 1992

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