quarta-feira, 25 de outubro de 2017

DESPEDIDA

DESPEDIDA

Não quero ouvir o canto triste do rouxinol,
Nem sentir a chuva fria que cai lá fora;
Só quero a paz, quero o sorriso, a solidão,
Quero viver a minha vida, minha verdade que ri e chora.

Não quero ver os olhos tristes do meu amor,
Nem ver os olhos surpresos da minha irmã;
Só quero dar o meu adeus sincero, o meu adeus profundo,
Pois partirei, eu quero achar o meu amanhã.

Vou fugir, quero fugir e não mais voltar,

Adeus amor, adeus vida, adeus liberdade;
Vou trilhar um caminho escuro, talvez mais seguro,
Vou deixar também um pouco mais de saudade.

Tenho vontade de chorar, mas não consigo,
Só penso em tudo que aconteceu e não se apagou;
Não quero olhar este sol que agora se esconde,
Nem perseguir uma gaivota que a pouco voou.

Quero é voar, quero enfim fugir para o paraíso,
Olhar a lua, o vaga-lume, o girassol;
Não quero ouvir o murmúrio fúnebre do velho mar,
Não quero ouvir o canto triste do rouxinol.
                                       
  *J.L.BORGES
PORTO ALEGRE.1982

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