O CONTADOR - Microconto
Fulano de Tal era um sujeito miserável de marca maior. O negócio dele era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Doze horas por dia, sete dias por semana.
"Namorar? Capaz!" dizia. "Isso dá gasto."
Morava sozinho, dormia sozinho, falava sozinho. Na empresa, nada de "trololó" com os colegas. Só produzir, produzir, produzir.
Amava tanto o dinheiro que o recebia direto das mãos dos patrões. Só para sentir o calor das cédulas. Não punha no banco. Guardava em casa, a sete chaves, para ver diuturnamente.
Certa noite olhou o céu e imaginou cada estrela como moeda de ouro. Todas dele. Suspirou.
Na manhã seguinte abriu a porta do quarto e parou. A sala estava tomada por cédulas de todos os valores. Babou de felicidade. Esqueceu o trabalho, a comida, tudo. Passou o dia contando, organizando por valor. Às 10 da noite anotou a fortuna e dormiu ao lado dela, exausto.
De madrugada acordou. Nada. O dinheiro tinha sumido. Só restaram as anotações. "Enlouqueci? Foi alucinação?" A casa tinha alarme. A mala estava intacta embaixo da cama. Não foi roubo. Voltou a contar o pouco que tinha e dormiu.
No dia seguinte, a mesma cena: a casa cheia de dinheiro. De novo esqueceu o trabalho e recomeçou a contagem frenética. Comeu às pressas e dormiu.
Na manhã seguinte, de novo: tudo sumido. Só os papéis. "Preciso dar desculpa na firma", pensou. "Mentir gasta energia."
No terceiro dia abriu a porta e gemeu: mais dinheiro ainda, espalhado pela casa. "O trabalho que se exploda. Vou comprar a empresa", decidiu. E contou o dia inteiro.
Três dias depois, os patrões foram à sua casa. Pularam o portão. A porta estava encostada. Chamaram. Silêncio.
Na sala, vazia. No quarto, luz. Abriram. Lá estava Fulano, ajoelhado, rodeado de rolos de papel higiênico picotado. Contava, anotava e guardava em caixas de papelão. Uma hora depois, jogava tudo no chão e recomeçava.
Hoje, no manicômio, há um novo hóspede.
Codinome: *"O Contador"*.
*J.L. Borges, do Brasil ®
Guaiba 2026/07
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