O CONTADOR
Fulano de Tal era um sujeito miserável de marca maior. Como diz um velho ditado, o negócio dele era trabalhar, trabalhar, trabalhar. Enfim, acumular horas extras para ganhar bastante dinheiro. Como ele sempre dizia, era a alegria dos patrões, pois trabalhava 12 horas por dia, sete dias por semana.
- "Namorar? Capaz!" - falava ele. "Isso dá muito gasto."
Claro que, com esse pensamento miserável, morava sozinho, dormia sozinho e falava sozinho. Na empresa, nem pensar em ficar de "trololó" com os colegas. Tinha que produzir, produzir, produzir. Só assim ganharia mais e mais.
Fulano era tão ganancioso e amava tanto o dinheiro que, quando saía do serviço, corria para casa, trancava-se no quarto e se punha a contar seu dinheiro. Contar, contar e contar. Só depois, já exausto de contar, é que ia fazer seus afazeres domésticos.
Sua paixão pelo dinheiro era tanta que o recebia direto das mãos dos patrões. Só para sentir o calor das cédulas nas mãos e o volume nos bolsos. O sujeito não o colocava no banco. Guardava-o em seu quarto, a sete chaves, só para poder vê-lo diuturnamente.
Certa noite, por milagre, estava a olhar o céu estrelado e imaginou cada estrela como se fosse moeda de ouro e prata. Todas dele, lógico. Suspirou, pensando no prazer que seria contá-las uma a uma e deixá-las bem organizadas em seu quarto, que aliás já abrigava uma considerável quantia em dinheiro.
Com esse pensamento, o avarento e ganancioso sujeito foi dormir. Tinha que acordar cedo. O trabalho o esperava de braços abertos.
Acordou, como sempre, cedo. Foi se preparar para a labuta. Abre a porta do quarto e, eis que, para seu espanto, vê por toda a sala cédulas e mais cédulas, de todos os valores. Chega a babar de felicidade e rapidamente começa a colocá-las dentro do quarto. Esquece da refeição, do trabalho, enfim, de tudo à sua volta, e começa a contá-las freneticamente, organizando-as por seus respectivos valores. Assim passa o dia todo contando. Lá pelas 10 da noite, já cansado, consegue organizá-las e anotar o valor de sua fortuna, que caíra por encanto em seu colo. Muito cansado, dorme ali mesmo, ao lado daquela fortuna.
Lá pelas tantas da madrugada acorda e, para sua surpresa, nada estava lá. Todo aquele dinheiro tinha sumido.
"Será que enlouqueci?", pensa ele. "Será que foi uma alucinação?"
Olha ao lado e vê todas as anotações. Muita grana, por sinal. Fica alguns instantes pensando. Roubo não podia ser. Sua casa era bem fechada, com alarme de segurança para proteger seu amado dinheiro. Corre e olha embaixo da cama. Lá está sua mala intacta. Então não foi roubo. Foi sim uma alucinação. Abre a mala e começa sua contagem diária. Depois disso volta a dormir, para retomar sua rotina e dar uma boa desculpa. Afinal, ele trabalha na mesma empresa há 25 anos e nunca faltou um dia sequer.
O avarento acorda no horário de costume, levanta-se e vai preparar seu desjejum. Ao abrir a porta do quarto, olha esbugalhado: aquela fortuna espalhada por toda a sala! Sem pensar duas vezes, leva tudo para o quarto. Esquece do trabalho e recomeça sua frenética contagem e anotações. Lá pelas 9 da noite, a fome bate. A contragosto interrompe a contagem, faz uma rápida refeição e volta a contar, anotar, contar, anotar. Termina um pouco mais tarde e, exausto, cai num sono ferrado.
Ao acordar pela manhã, fica estupefato. Toda aquela grana, contada, anotada e organizada, tinha sumido.
"Não pode ser", pensa ele. "Enlouqueci mesmo?"
Porém, olha ao lado e vê os papéis de suas anotações. Fica sem saber o que pensar. Mas num estalo lembra do trabalho. O que vai explicar agora por 2 dias de falta? Vai ter que mentir que estava acamado. Não gosta muito disso. Mentir requer energia pra gastar, e gastar não era com ele. Mas vai lá e, por uma boa causa, fala a seus botões.
E assim se prepara para começar sua rotina: trabalhar, receber, contar, guardar. Apesar de já estar cansando de tanta contagem, meio trôpego abre lentamente a porta do quarto.
"Não é possível!", geme ele. Espalhada por toda a casa, aquela imensa fortuna. Agora parecia um montante ainda maior.
"O que fazer?", pensa ele. "Não posso deixar toda essa dinheirama espalhada pela sala e ir trabalhar como se nada tivesse acontecido. O trabalho que se exploda", fala ele. "Eu vou é recolher este dinheiro, que é todo meu. Contá-lo, organizá-lo e anotar tudo novamente. Só que agora não vou dormir. Quero ver se vai sumir. Amanhã vou lá na firma. Não vou dar explicações. Eu vou é comprar a empresa para adquirir mais e mais dinheiro. Meus colegas vão ver. A primeira coisa que vou fazer é cortar as horas de pausa para o almoço e outras regalias. Deixa comigo."
E assim o avarento recomeça sua surreal contagem. Esquece até da fome. O dia todo passa contando, anotando, organizando. Lá pelas 5 da tarde bate a fome. Frita um ovo, pega um café requentado e um pão já duro e amanhecido. Faz uma rápida refeição.
Passados 3 dias de falta de Fulano de Tal, os patrões vão até a casa do sujeito. Coisa que não era costume deles, mas quebraram a regra por se tratar de um funcionário antiquíssimo que nunca tinha faltado meio dia de serviço sequer. Não telefonaram, pois, tão miserável que era, nem um simples aparelho celular ele tinha. "Gastar inutilmente pra quê?", dizia ele. "Gosto é de falar olho no olho."
Chegando lá, batem palmas, gritam e nada. Com muita dificuldade pulam o portão. Batem na porta, e ao fazê-lo notam que estava apenas encostada. Adentram o imóvel. Tudo em silêncio. Chamam o homem. Em resposta, mais silêncio. Vão casa adentro, imaginando o pior.
"Boa coisa não é", fala um dos homens.
Chegam na sala: vazia e silenciosa. Olham a peça ao lado. Vem uma luz pelas frestas da porta. Abrem-na. E lá está o homem, rodeado de rolos e rolos de papel higiênico e outros tantos papéis picotados. O homem, ajoelhado, contando-os, anotando-os em algumas folhas de papel e os colocando em grandes caixas de papelão.
Eles ficam ali, imóveis, a observá-lo. Uma hora depois, o veem recolocar todos aqueles picotes no chão e recomeçar a recontagem.
Agora, lá no manicômio, tem um novo hóspede bem pitoresco, por sinal.
Seu codinome? *O Contador".
*J.L. Borges, do Brasil ®
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