sábado, 7 de abril de 2018

TEMPOS NÚS

TEMPOS NÚS

Espumas a formarem águas,

No tempo nu da esperança;

Tênues brumas, tolas magoas,

A cultivarem lembranças.

O fio de sonhos naufraga,

Entre estranhas montanhas;

E esta gente divaga,

Perdendo-se entre as entranhas.

Entranhas do fel, do fumo,

Longe do mel e da fé;

Gente que perdeu o rumo,

Caminhando pé por pé.

E assim no chumbo do rio,

A luz da manhã vagueia;

Entre os bosques sombrios,

Sua selva, sua cadeia.

Na procura do incerto,

Esta gente cata passados;

Onde o amor anda perto,

Porem jamais é notado.

Mil confusões, vil vertentes,

Esta ilusão meretriz;

Contaminando esta gente,

Este presente infeliz.

Seres nus de um belo tempo,

Que passou, lacrando a porta;

E deixando perdida ao vento,

A esperança quase morta.

(homenagem ao índio, verdadeiros habitantes do Brasil)

*J.L.BORGES






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