TEMPOS NÚS
Espumas a formarem águas,
No tempo nu da esperança;
Tênues brumas, tolas magoas,
A cultivarem lembranças.
O fio de sonhos naufraga,
Entre estranhas montanhas;
E esta gente divaga,
Perdendo-se entre as entranhas.
Entranhas do fel, do fumo,
Longe do mel e da fé;
Gente que perdeu o rumo,
Caminhando pé por pé.
E assim no chumbo do rio,
A luz da manhã vagueia;
Entre os bosques sombrios,
Sua selva, sua cadeia.
Na procura do incerto,
Esta gente cata passados;
Onde o amor anda perto,
Porem jamais é notado.
Mil confusões, vil vertentes,
Esta ilusão meretriz;
Contaminando esta gente,
Este presente infeliz.
Seres nus de um belo tempo,
Que passou, lacrando a porta;
E deixando perdida ao vento,
A esperança quase morta.
(homenagem ao índio, verdadeiros habitantes do Brasil)
*J.L.BORGES
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