sexta-feira, 9 de março de 2018

O LENHADOR E O REI(...)

O LENHADOR E O REI

                  Num tempo distante, numa longínqua terá, havia um pequeno reino, governado por um bom rei, mas porem temperamental, as vezes era compreensivo para com seus súditos, outras vezes implacável.

                  Havia também neste reino um bispo, que era o confessor do rei, tinha a fama de sábio e pensador, devido somente a ignorância do povo , não importava a bobagem que o religioso falasse, que logo se tornava provérbio entre o povo, tudo com a concordância do rei, que apesar de todo poderoso, tinha pouca cultura, tanto ele como seus ministros.

                  Aquele pequeno reino vivia sua rotina pacata, até que certo dia o bispo quebrou a rotina com uma infeliz idéia sua, mandou colocar em frente a casa bispal, localizada logicamente no centro da cidade em frente ao palácio real, uma placa com os seguintes dizeres em ouro e prata:”O homem que sabe tudo”.

                  No amanhecer do primeiro dia depois da colocação da placa, um dos lacaios do rei ao passar em frente do prédio, viu a placa, embora mal soubesse ler, conseguiu como por milagre subentender os dizeres, e imediatamente foi correndo comentar, ou melhor fofoquear com o guarda do palácio, que comentou com seu superior, que comentou com outro mais superior anda que de fofoca em fofoca chegou aos ministros e dos ministros chegou aos ouvidos do rei.

                  Sabedor deste fato o rei ficou furioso, e temperamental como era, não estava num dos seus melhores dias, e imediatamente mandou chamar o o bispo, infeliz autor daquela frase ; foi um alvoroço no palácio, o bispo, intimado para uma audiência real? Coisa séria, passível até de guilhotina.

                  O bispo que estava na consagração da missa matinal, rapidamente finalizou o culto tão sagrado e foi apreensivo à presença do rei, que furioso o aguardava.

                  Depois de muitas mesuras e frescuras o bispo fala:

                  _Pronto sua digníssima e nobríssima majestade, estou inteiramente as suas ordens, puxasacamente falando assim disse o bispo.

                  O rei, impassível ao alto de sua soberba, frio que nem as imagens góticas esculpidas em seu castelo esbraveja.

                  -Mas como? Então tivestes a coragem e a ousadia de expor semelhante placa em frente ao meu castelo, com que autorização fizestes semelhante besteira?...

                  -Olha majestade, eu pensei...

                  -Padre, falou o rei rebaixando de propósito o bispo, o senhor não é pago para pensar, e sim para dar a paz espiritual a meus súditos, aqui quem pensa sou eu.

                  -Mas meu ri, eu achei...

                  -Olha, quem acha alguma coisa aqui sou eu, e já que dizes ser o maior pensador do reino, vou te dar umas charadas para responder, escrivão, bradou o rei, coloque no edital real para tornar-se lei imediatamente.

                  Rapidamente e tremulantemente o escrivão pega a pena, o tinteiro e papeis, que os ministros nervosamente(desculpem-me este monte de mente, é que é uma estórinha de mentirinha mesmo),assinam e tornam oficial o carimbo do rei.

                  -Olha caríssimo padre... bispo, entendeu? Vou te fazer apenas sete perguntas, ou charadas como tu bem entender, até amanhã no badalar do sino da missa das seis da tarde exijo as respostas, sob pena de lhe aplicar a condenação máxima, que é a morte na guilhotina, se não me responderes certo estas questões, entendeu?

                  -Mas majestade...

                  -Nada de mais nem menos, respondeu o rei, porem se acertares minhas perguntas corretamente em consideração a tua sabedoria, te darei sete mil coroas de ouro e deixarei ficares com aquela esdrúxula placa em frente a meu castelo, como titulo de reconhecimento, escrivão, vamos as anotações.

                  -Primeira pergunta: quantas árvores existem em minha floresta real?

                  -Segunda pergunta: quantas estrelas existem no céu?

                  -Terceira pergunta: quantos balaios de terra podem ser tirados daquele morro?

                  -Quarta pergunta: quanto pesa a lua?

                  -Quinta pergunta: quantos graus de calor tem o sol?

                  -Sexta pergunta: qual o valor de minha pessoa perante meus súditos?

                  -Sétima pergunta: o que estarei pensando quando estiveres comigo amanhã?

                  O rei acaba de formular as perguntas, revisa o texto redigido, manda selar o edital e dá uma copia ao perplexo e tremulante bispo, dispensa todos e encaminha-se a seu aposento real de descanso, sabedor de ser o idealizador de mais um projeto que lhe enche de orgulho e prazer.o bispo, coitado, de olhos vermelhos, cabisbaixo volta a casa bispal, ou paroquial seja lá o que for, sem saber patavinas nenhuma daquelas perguntas idiotas feitas pelo rei, não sabe como fazer para sair daquela arapuca real.

                  Veloz como um rastilho de pólvora a noticia correu, e como era um reino muito pequeno, por volta da tarde a o acontecido já tinha chegado as fronteiras do lugar.

                  Nestes confins do reino, num vale verdejante e fecundo morava um humilde lenhador, vida simples a deste homem, coisa que ninguém sabia é que ele era irmão gêmeo do padre. O lenhador sabedor deste fato vai a procura do irmão, altas horas da noite, chega o homem a cidade, surpreendendo o bispo com aquela inusitada aparição, deixando-o surpreso, pois não o via à vários anos; o lenhador pega-o em completo desespero e em profunda oração, e o bispo que estava em extremamente deprimido fica feliz com aquela inesperada visita, ao contrario de outros tempos.

                  -A que devo o prazer de tua visita mano? Saibas tu que chegastes numa hora muito triste para mim?

                  -Pois justamente por isso que estou aqui, soube o que aconteceu e mais ou menos o que se trata, sabes como é a língua do povo, veloz que nem vento, e sabedor, vim para tentar te ajudar.

                  -Mas como mano?falou o bispo, mostrando o documento timbrado do rei.

                  O lenhador olha calmamente , analisa e exclama:

                  _São apenas charadas, e charadas sempre são possíveis de decifrar.

                  -Diga-me então irmão como resolver estes enigmas...

                  -Não posso dizer-te irmão, porque ao ultima adivinhação certamente terei que estar pessoalmente na presença do rei, façamos o seguinte, vamos trocar de roupas, tu ficas com minhas roupas de lenhador e eu com teus trazes de bispo e assim irei eu a audiência sem despertar suspeita alguma.

                  Depois de conversarem até o começo da madrugada, jantam, bebem aquele vinho especial do bispo, mais umas revisões no plano, o lenhador pede ao bispo que consiga muitos papeis velhos, tesoura e três sacos, prontamente conseguido.

                  -Meu irmão, diz o lenhador, agora vou descansar um pouco e tu ficas ai cortando estes papeis, corta-os iguais a confetes e os coloca nos dois sacos pretos e no saco branco , mas enche bem...

                  Depois de recomendações de boa noite, vai para o quarto suntuoso do bispo, melhor aposento da casa.

                  E lá fica o bispo acordado, varando a noite a picar confetes...

                  A manhã chega preguiçosa, o bispo a orar nervosamente, silencio na grande casa, a cidade quieta, parecendo pressentir algo ruim no ar, chega meio dia, os dois almoçam em silencio, o clerico quase nada come, porem o lenhador, com um apetite de lenhador mesmo devora languidamente aquele manjar dos deuses, coisa nunca vista e nem provada por ele; as horas passam rapidamente, quinze para as seis, a tarde quase no seu e o lenhador vestido de bispo, três sacos as costas caminha lentamente em direção ao paço real, chegando lá, vê a guilhotina montada, o povo aguardando o espetáculo, o rei e os ministros impávidos a sua espera.

                  Já chegando o pseudobispo fala, talvez para desviar as atenções...

                  -Saudações majestade, desculpe a minha aparência, e que passei a noite inteira contado estrelas e de madrugada estava eu na floresta a contar árvores

                  Despeja os três sacos no chão, abarrotados de papeis picados.

                  -Majestade, nos dois sacos brancos estão a contagem das estrelas que existem no céu, são doze milhões, trezentos e vinte e três mil, cento e onze estrelas, contando com o sol, é lógico, pode conferir, no outro saco estão as quantidades de árvores de sua floresta, são novecentos e cinqüenta e seis mil e quatrocentos e cinqüenta e seis árvores, pode também conferir...

                  O rei atônito olha para seus ministros e eles rapidamente com medo de terem de contar mesmo, concordam com a resposta dada.

                  -Digníssimo rei, já lhe disse a primeira e a segunda resposta da charada, a terceira e bem simples, se o balaio for do tamanho do morro, com uma balaiada só se tira toda a terra do mesmo, se for do tamanho da metade do morro, com duas balaiadas se tira toda a terra, se o balaio for a centésima parte do morro, lhe garanto que com cem balaios a gente acaba com o morro, tudo depende do tamanho do balaio, se for milionésima parte...

                  -Chega, chega, nós já entendemos responde o rei, e todos os ministros concordam com aquela inusitada resposta.

                  -A quarta e mais simples ainda, a lua tem quatro quartos, todo mundo sabe que um quarto e duzentos e cinqüenta gramas, dois quartos então é meio quilo, e se ela tem quatro quartos, logicamente só pode pesar um quilo, se tiver alguma duvida mande alguém lá conferir, é longe pra dedeu, eu já fui lá, por isso sei a resposta, sabe como é que é, lua de São Jorge, e eu como sou religioso e fervoroso devoto dele, lá fui, mas em sonhos é claro.

                  Todo mundo quieto em sinal de aprovação, a praça toda em êxtase.

                  -Excelentíssima majestade, a quinta pergunta é a mais complexa:quantos graus de caloria tem o sol? Olha nobre rei, no verão pode chegar até a quarenta e nove graus, lembra-se no verão de sessenta e oito, que horror de calor, quarenta e nove na lata; porem no inverno é o inverso, pode até não ter caloria nenhuma, pois chega a ficar cinco graus abaixo de zero, lembra-se do inverno de setenta e sete? Podemos também medir a caloria pela media geral, pega-se o verão de sessenta e oito e o inverno de setenta e seta e se faz a media, alguém se habilita a fazer o calculo para conferimento? Silencio geral, outra aprovação.

                  -a sexta pergunta é simples e vou responder com outra pergunta, e chama um dos súditos do reino que estava assistindo aquele insólito questionamento, hei amigo, quanto tens no bolso?

                  -Meu senhor digno religioso, eu tenho dez moedas de bronze.

                  _Obrigado, diz o pseudo religioso,e voltando—se ao rei, pergunta-lhe, majestade, por ventura, Cristo não foi vendido por trinta moedas de prata?

                  -Sim, afirma o atônito governante, Cristão fervoroso que era.

                  _Pois então digníssimo rei, como o senhor não pode estar acima de Cristo e nem abaixo dos seus súditos, o senhor tem valor intermediário, tanto espiritual como material, assim sendo sempre valerá mais que seu súditos, mas será de menor valor que o filho de Deus, nosso senhor Jesus Cristo, entendeu meu rei?

                  -Sem mudar de assunto glorioso rei, vou responder  a sétima e derradeira pergunta, porem antes fazendo um ponderamento sobre os dizeres daquela malfadada placa pois  ela pode ter outro significados, não aquele que foi pensado pelo senhor rei pois aquela placa com os dizeres”o homem que sabe tudo” talvez não fosse  propriamente ao bispo, mas sim a sua pessoa, depende do ponto de vista de cada um dos passantes no local, porem a resposta a pergunta o que estas pensando neste momento, com todo o respeito, o que o ilustríssimo rei está pensando é que eu sou o bispo de seu reino, mas porem estas enganado divinamente majestade, eu sou apenas um lenhador lá dos confins da floresta, irmão gêmeo do bispo.

                  O povo ovaciona o lenhador em sua perfeita dissertação, o rei tem que por força de lei que ele mesmo redigiu , aceitar as ponderações do lenhador e doar a recompensa prometida, os magníficos sete mil coroas de ouro e deixar a placa na residência paroquial, atestando a sabedoria do rei e também do clerico dependendo do ponto de vista dos súditos.

                  E a fama do lenhador como um legitimo pensador ultrapassa as fronteiras daquele minúsculo reino e o rei admirado com sua serenidade a resolver problemas adversos o nomeia seu conselheiro e ouvidor do reino.

                  E a sua fama de sábio percorre lugares distantes e desconhecidos.

                  Ah! E o bispo?o bispo agora é só bispo e zefini!!!

                                                                             *J.L.BORGES

    

                    

                

          

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