EU TAMBEM VOU RECLAMAR
As tristezas que flagelam o sem teto,
São as mesmas que arrasam o sem terra;
Passado esquecido, cotidiano deserto,
Frágil esperança que a vida encarcera.
São tantos insucessos nestas paginas esquecidas,
Desejos secretos, mal dá pra agüentar;
E assim prosseguimos com esta ânsia perdida,
Nesta vida vazia, onde só resta é chorar.
Se me ligo em jornais, eu só leio reclames,
Carros, motos e fotos; mais um corpo a tombar;
Abra os céus e janelas, por favor não me enganes,
Meu amor, não agüento, quero então reclamar.
Talvez assim meu protesto possa até ser ouvido,
E ser lido também em igrejas, favelas;
Já morri muitas vezes neste mundo perdido,
Eu queria viver, não olhar da janela.
Se ganhasse a semente eu até colheria,
Estes frutos de ontem que pensei reclamar;
Não adianta ser rico e prometer calmarias,
Eu prefiro ser pobre e poder reclamar.
*J.L.BORGES
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