sexta-feira, 9 de março de 2018

EU TAMBEM VOU RECLAMAR

EU TAMBEM VOU RECLAMAR

As tristezas que flagelam o sem teto,

São as mesmas que arrasam o sem terra;

Passado esquecido, cotidiano deserto,

Frágil esperança que a vida encarcera.

São tantos insucessos nestas paginas esquecidas,

Desejos secretos, mal dá pra agüentar;

E assim prosseguimos com esta ânsia perdida,

Nesta vida vazia, onde só resta é chorar.

Se me ligo em jornais, eu só leio reclames,

Carros, motos e fotos; mais um corpo a tombar;

Abra os céus e janelas, por favor não me enganes,

Meu amor, não agüento, quero então reclamar.

Talvez assim meu protesto possa até ser ouvido,

E ser lido também em igrejas, favelas;

Já morri muitas vezes neste mundo perdido,

Eu queria viver, não olhar da janela.

Se ganhasse a semente eu até colheria,

Estes frutos de ontem que pensei reclamar;

Não adianta ser rico e prometer calmarias,

Eu prefiro ser pobre e poder reclamar.

 *J.L.BORGES

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