O OUTRO LADO DO ESPELHO
Pássaros de metal,
Levitam sobre a lua;
A lua de cristal,
Na nua face tua.
Um vulto a correr,
Da morte e da vida;
São redes de intrigas,
No escuro do poder.
A fé que rege o mundo,
É um muro desigual;
Vertentes de algum mal,
Num riso idiota e imundo.
O louco vagabundo,
Gentil homem racista;
É bomba que conquista,
O negro submundo.
Na guerra nuclear,
O mal nasce aos poucos;
És tu irmão louco,
Irmão a me espelhar?
Sou tudo nesta vida,
Sou nada neste tudo;
No riso eu me iludo,
Me atolo em tua entrada.
Sou pássaro de metal,
Voando em tua rua;
Bem longe, atrás da tua,
Metade de cristal.
Sou homem arisco e forte,
Tentando em vão vencer;
A fria e nua morte,
Sem medo de morrer.
*J.L.BORGES
1993
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