sábado, 20 de janeiro de 2018

O OUTRO LADO DO ESPELHO

O OUTRO LADO DO ESPELHO

Pássaros de metal,

Levitam sobre a lua;

A lua de cristal,

Na nua face tua.

Um vulto a correr,

Da morte e da vida;

São redes de intrigas,

No escuro do poder.

A fé que rege o mundo,

É um muro desigual;

Vertentes de algum mal,

Num riso idiota e imundo.

O louco vagabundo,

Gentil homem racista;

É bomba que conquista,

O negro submundo.

Na guerra nuclear,

O mal nasce aos poucos;

És tu irmão louco,

Irmão a me espelhar?

Sou tudo nesta vida,

Sou nada neste tudo;

No riso eu me iludo,

Me atolo em tua entrada.

Sou pássaro de metal,

Voando em tua rua;

Bem longe, atrás da tua,

Metade de cristal.

Sou homem arisco e forte,

Tentando em vão vencer;

A fria e nua morte,

Sem medo de morrer.

*J.L.BORGES
1993

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