CENSURA
Lábios que falam, não dizem nada,
Caminhos que levam a lugar nenhum;
Vozes caladas, bocas caladas,
Levando a paz em tempo algum.
Mãos que acenam e batem palmas,
São boas almas, tantos desgostos;
Bocas que beijam e marcam o rosto,
Pequenos medos levando a calma.
Anjos soprados em longos ventos,
Sonhos crianças, ledos brinquedos;
Trazem ventura, levam segredos,
O desatino de alguns momentos.
Seguindo sempre feito lembrança,
De braços dados com o destino;
Se sou humano eu sou menino,
Se tenho vida, tenho esperança.
Se sou calado sem dizer nada,
Desenho em branco uma melodia;
Nesta censura de agonia,
No povo frágil, desesperado.
*J.L.BORGES
1994
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