AS MIL FACES DA VIDA
A vida que arde em minha lareira,
São brasas que ardem no leito presente;
Trazendo o calor e a dor desta gente,
Um sol de verão que despe a clareira.
É doce esta vida, a vida que vai,
Embora da gente sem se despedir;
A dor de partir e a dor envolvente,
Num mundo carente que sobe e que cai.
Sou jovem e velho, futura criança,
Uma negra esperança no seio da gente;
Se fui a semente sou vida talvez,
A sarça de Deus, nefasta e ardente.
Cordeiro imolado em seu sacrifício,
Levando da vida o pouco que tem;
Se tu és montanha, eu sou precipício,
Principio manchado na vida que vem.
Quem dera que a vida nunca queimasse,
E nunca ardesse em minha lareira;
A dor que em mim nasce, talvez seja a face,
Da fera ferida sem ser a primeira.
*J.L.BORGES
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