ANJO NEGRO
Nos becos estreitos da negra cidade,
O preto do luto encobre a lua;
A noite é escura, escura é a rua,
A densa loucura não tem mais idade.
O tempo que passa é vento veloz,
Anuncio que a vida é uma tempestade;
Trazendo na garganta a paixão que invade,
Sem paz nem procura, canção sem a voz.
Em sua negra doçura sorri a criança,
São duas estrelas no carvão do olhar;
Promessas e candura de um anjo a cantar,
Num canto seu canto, talvez de esperança.
É escura a lembrança na noite que passa,
Os becos são pontos de encontro de paz;
Mensagens que a vida nos leva e nos trás,
Iguais menininhos dormindo nas praças.
São tantos postais escondendo as favelas,
Levando os sonhos ao mundo inteiro;
Se sou negro, eu sou também brasileiro,
Dou axé nas senzalas de tantas favelas.
*J.L.BORGES
1993
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