sábado, 20 de janeiro de 2018

ANJO NEGRO

ANJO NEGRO

Nos becos estreitos da negra cidade,

O preto do luto encobre a lua;

A noite é escura, escura é a rua,

A densa loucura não tem mais idade.

O tempo que passa é vento veloz,

Anuncio que a vida é uma tempestade;

Trazendo na garganta a paixão que invade,

Sem paz nem procura, canção sem a voz.

Em sua negra doçura sorri a criança,

São duas estrelas no carvão do olhar;

Promessas e candura de um anjo a cantar,

Num canto seu canto, talvez de esperança.

É escura a lembrança na noite que passa,

Os becos são pontos de encontro de paz;

Mensagens que a vida nos leva e nos trás,

Iguais menininhos dormindo nas praças.

São tantos postais escondendo as favelas,

Levando os sonhos ao mundo inteiro;

Se sou negro, eu sou também brasileiro,

Dou axé nas senzalas de tantas favelas.

*J.L.BORGES
1993

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