terça-feira, 19 de março de 2019

SEMENTES DA AMÉRICA

SEMENTES DA AMÉRICA

Nos campos e montanhas ouço ecos,
Relatando fatos que a historia não registra;
Do norte ao sul ecoam memórias imortais,
Coroados de sangue e conquista.

Eu vejo tudo, pois sou a luz da América,
Sou a semente que o vento leva longe;
Sou o herói de tantas guerras despertadas,
Pelo medo medieval que em mim se esconde.

Sou restos de vida e poeira,
Andejante no inóspito Atacama;
No Titicaca sou o espelho a refletir,
A vaidosa lua, inviolável e cigana.

Sou a espinha dorsal de ti América,
De Punta Arenas até o norte do Alasca;
Fui o sangue derramado em muitas guerras,
Do Chaco Boreal ao Athabasca.

Eu fui o sangue de heróis anônimos,
Que defenderam este chão sagrado;
De Zapata, Bento e Che Guevara,
Eu fui o riso de um tempo encantado.

Eu fui dragão a proteger Antilhas,
Lugar sagrado onde o sol nunca se põem;
Fui pomo de ouro a coroar as ilhas,
Virgens donzelas que o tempo impõem

No gigantesco atlântico sou as ondas,
Que te beijam pátria amada toda hora;
Restos de pergaminhos que falam de índios,
De sacis, mboi tatás e caiporas.

Sou o rio são Francisco a te verdejar,
Não tenho tempo e nem hora pra chegar;
De longe trago e te oferto minhas memórias,
Milhões de historias eu consigo te contar.

Sou a esperança semeada pelo lavrador,
De Baffim ou Labrador onde a caverna;
É o abrigo natural do urso branco,
Que na longa noite glacial hiberna.

Nos confins da Groenlândia sou o sol,
Da meia noite que em teu seio arde;
Na secessão fui a luz dos teus caminhos,
Tua prisão e também tua liberdade.

Na terra do fogo simplesmente sou a neve,
E na miséria deste povo a semente;
Progresso de um conto de fadas,
Envolvendo a alma desta gente.

Dos Andes sou o condor simplesmente,
Levitando na verdejante Amazônia;
Sou a magia das noites polares,
Labirintos da Patagônia.

Nas geadas das campinas sou o vento,
Minuano cantando nos pampas;
Beijando as escarpas e faxinais,
Deste rincão envolvente que encanta.

Das florestas sou arvores e cipós,
Protegendo os animais e suas trilhas;
Sou o sol moreno beijando o pacifico,
Sou a pororoca e suas armadilhas.

Sou poemas e canções sem ter fronteiras,
Galgando as rochas das montanhas;
No fim do arco íris o brilhante,
Negro ouro oriundo de tuas entranhas.

Nas madrugadas a te beijar sou o orvalho,
Nas manhãs frias o trotear da lhama;
Sou a cinza do Aconcágua, eu sou vulcão,
Meu coração és tu América, minha chama.

E neste tudo onde nada sou no universo,
Sou o alimento e inspiração deste meu povo;
Minha pequenez é gigantesca, sou eterno
E num segundo morro pra nascer de novo.

*J.L.BORGES
1991

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