O NEGRO
Sou a negra tempestade que agita,
As colinas de teu coração agreste;
Sou em teu sono esta noite tão bonita,
Sou teu cavalo de carga, sou tua peste.
Vim de uma África, mãe tristonha,
Mãe que viu os filhos dela irem embora;
Fui teu escravo, hoje sou escravo dos sonhos,
Nada ganho desta vida que devora.
Eu sou negro, não renego minhas origens,
Sou o sangue do Brasil em tuas veias;
Sou a dor deste povo, eu sou vertigem,
Neste mundo desigual que te tonteia.
Passei nesta vida mil horrores,
E ela de mim não teve pena
Ontem eu era negro, era escravo do senhor,
Hoje eu branco, sou escravo do sistema.
*J.L.BORGES
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