DE PORRE NA TUA
O espírito do mal,
Retem meu olhar;
Presença letal,
Sem teto, num bar.
Me agito na mesa,
E o vinho me envolve;
Retenho a tristeza,
Sem tu que é meu porre.
São tontas as procuras,
Que o tempo me escapa;
Nas minhas loucuras
Não temo a ressaca.
O vento mudou,
São nuvens que vem;
O dia acabou,
Estou sem meu bem.
A noite que passa,
Suspiros da lua;
E eu na vidraça,
Estou sempre na tua.
Que vida drogada!
Que droga de vida!
Sou pó nesta estrada,
Sem tu minha querida
Se o dia amanhece
Acordo sozinho;
Sem fumo e sem vestes,
Sou erva daninha.
E o espírito de porre,
De longe me espia;
A dor me socorre,
Vomito na pia.
J.L.BORGES
Nenhum comentário:
Postar um comentário