sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

RABO DE FOGUETE

RABO DE FOGUETE

Levei um ponta pé na bunda,

Por ter acreditado em promessas;

Sonhar com o riso persistente,

Da criança a chorar na noite.

No brilho do cocô infantil;

O perfume francês perde seu valor;

Os sinos das catedrais góticas imploram,

E os bordeis fervilham num sem fim.

A dor da alma é infalível,

Mas a dor do desamor fede;

O aroma da cacaca na chuva,

Reflete a pureza das cidades.

Um trovão rasga as noites milenares,

Tomba um corpo infantil nos becos da cidade;

Risos de escárnio na boca do tirano,

E o povo submisso sendo violado.

Do jovem foi trocada a virgindade,

Pela inocência infantil do ancião;

Promessas tolas, loucos gestos de fortuna,

Má, mundana pátria prostituta.

Mas a luta não acaba, ela começa,

Como a noite negra das cidades;

Sou veterano, sou profano sonhador,

E por sonhar levei um ponta pé na bunda.

*J.L.BORGES.1991

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