sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

INSETO ESTÁTICO

INSETO ESTÁTICO

Por não ser aventureiro,

Conheço o Brasil inteiro,

Sem nunca sair daqui;

Me tranquei dentro de mim,

Tornei-me um prisioneiro,

Destas magoas que me ferem,

Que rasgam meu coração.

Só conheço o Brasil lá fora,

Nas manchetes de jornais;

Guerra no meio da paz,

Liberdade na prisão.

Sou gasto mas sou fecundo,

Eu sou cravado no chão;

Meus caminho tem espinhos,

Que jamais arrancarei;

Ideais ultrapassados,

Que jamais construirei.

Minha política é a liberdade,

Fartura e pão sobre a mesa;

Alegria e não tristeza,

Dos menos favorecidos;

Sou amigo do inimigo,

Que me escarra na cara.

Sou na sarjeta o inseto,

Esmagado sob o jugo,

De uma longa ditadura,

Desdentada e cariada;

Castrada e sem futuro.

*J.L.BORGES
1990


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