INSETO ESTÁTICO
Por não ser aventureiro,
Conheço o Brasil inteiro,
Sem nunca sair daqui;
Me tranquei dentro de mim,
Tornei-me um prisioneiro,
Destas magoas que me ferem,
Que rasgam meu coração.
Só conheço o Brasil lá fora,
Nas manchetes de jornais;
Guerra no meio da paz,
Liberdade na prisão.
Sou gasto mas sou fecundo,
Eu sou cravado no chão;
Meus caminho tem espinhos,
Que jamais arrancarei;
Ideais ultrapassados,
Que jamais construirei.
Minha política é a liberdade,
Fartura e pão sobre a mesa;
Alegria e não tristeza,
Dos menos favorecidos;
Sou amigo do inimigo,
Que me escarra na cara.
Sou na sarjeta o inseto,
Esmagado sob o jugo,
De uma longa ditadura,
Desdentada e cariada;
Castrada e sem futuro.
*J.L.BORGES
1990
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