terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CENSURA

CENSURA

Lábios que falam, não dizem nada,

Caminhos que levam a lugar nenhum;

Vozes caladas, bocas caladas,

Levando a paz em tempo algum.

Mãos que acenam e batem palmas,

São boas almas, tantos desgostos;

Bocas que beijam e marcam o rosto,

Pequenos medos levando a calma.

Anjos soprados em longos ventos,

Sonhos crianças, ledos brinquedos;

Trazem ventura, levam segredos,

O desatino de alguns momentos.

Seguindo sempre feito lembrança,

De braços dados com o destino;

Se sou humano eu sou menino,

Se tenho vida, tenho esperança.

Se sou calado sem dizer nada,

Desenho em branco uma melodia;

Nesta censura de agonia,

No povo frágil, desesperado.

*J.L.BORGES
1994

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