SEM PÉ NEM CABEÇA
Olá amigo! Assim não dá,
Guarda tua ilusão no peito;
Onde foi parar todo mundo?
Parece até que fugiram da fé.
Perdestes com o tempo,
O teu coração e a realidade;
Esmagastes os velhos sonhos,
Mas não apagastes teu sorriso.
Quero o sorriso de todos,
Quero ter loucura de ter fé;
Quero a efervescência da vida,
Eu preciso ser humano.
Quero o telefone sem linha,
Quero todas as mulheres do meu mundo;
O sol poente, um som gradiente,
Com todos os discos de Raul.
Preciso a ilusão do pão sadio,
A empresa de viver produzindo a paz;
Quero a menina feia, a mulher bonita,
Quero a ilusão de um amor sem fim.
Me dá um beijo agora,
De tarde ou também de manhã;
Aqui ou lã bem longe,
Quero as noites de colisão.
Embriagar-me na suave procura,
Quero me encontrar comigo mesmo;
Nesta rua, escura e vazia,
Enquanto a cidade dorme
*J.L.BORGES
Camaquã.1984
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