quinta-feira, 5 de abril de 2018

MÃOS

MÃOS

Vejo estas mãos bem nutridas,

Vazias mãos enluvadas;

Mãos escassas de ternura,

Recebem, não nos dão nada

Beijo estas mãos enrugadas,

Mãos que pegam na enxada;

Tiram alimento da terra,

Humildes mãos calejadas.

Mãos que constroem mansões

De mármores, pratas e bronze;

Mãos desprovidas de sonhos,

Tão sós, acenando longe.

Mãos que protegem os fracos,

Os oprimidos da vida;

Mãos carentes de apertos,

Dependentes... distraídas

Mãos que carregam areias

Do tempo, tentos segredos;

Esperança que esmorece,

Escorre por entre os dedos.

Mãos que pegam à água fresca,

Saciam a sede do corpo;

Mãos que afagam cabelos,

Procuram assim dar conforto.

Vejo a busca de outras mãos,

Num aperto de amizade;

Trocam fuzis pelas rosas,

Lapidam a eternidade.

Beijo as mãos hirtas e quietas,

Onde o suspiro demora;

Cansadas de tantas lidas,

Estão tristes, pois vão embora.

*J.L.BORGES

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