MÃOS
Vejo estas mãos bem nutridas,
Vazias mãos enluvadas;
Mãos escassas de ternura,
Recebem, não nos dão nada
Beijo estas mãos enrugadas,
Mãos que pegam na enxada;
Tiram alimento da terra,
Humildes mãos calejadas.
Mãos que constroem mansões
De mármores, pratas e bronze;
Mãos desprovidas de sonhos,
Tão sós, acenando longe.
Mãos que protegem os fracos,
Os oprimidos da vida;
Mãos carentes de apertos,
Dependentes... distraídas
Mãos que carregam areias
Do tempo, tentos segredos;
Esperança que esmorece,
Escorre por entre os dedos.
Mãos que pegam à água fresca,
Saciam a sede do corpo;
Mãos que afagam cabelos,
Procuram assim dar conforto.
Vejo a busca de outras mãos,
Num aperto de amizade;
Trocam fuzis pelas rosas,
Lapidam a eternidade.
Beijo as mãos hirtas e quietas,
Onde o suspiro demora;
Cansadas de tantas lidas,
Estão tristes, pois vão embora.
*J.L.BORGES
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