VENENO DA SERPENTE
Só vejo grades por onde caminho,
Me encontro sozinho, cercado de gente;
Um povo descalço, um povo sozinho,
Crianças drogadas, febris e doentes.
Neste sistema eu sinto a presença,
Deste elefante criado por mim;
Entrando em minha casa sem pedir licença,
Roubando meus sonhos e levando meu sim.
Já ando cansado desta hipocrisia,
De homens que falam, mas não dizem nada;
Promessas pintadas num mar de agonias,
Apertos forjados em mãos calejadas.
Sorrisos pintados em faces rosadas,
Olhar diplomático escondendo o poder;
Promessas de um tempo, ofertas de um nada,
Veneno mordente da língua a verter.
*J.L.BORGES
1994
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