NAS PORTAS DO ADEN
Teus olhos me ferem sempre,
A onde quer que tu vás;
Rainha do eterno tempo,
No templo de satanás.
Teu corpo é minha perdição,
Abismo num sem dormir;
A onde eu sonho em vão,
Tentando a dor não sentir.
És paz hedionda, infinda,
Razão de tormento és tu;
Luz negra que nunca finda,
Oh! Prima de belzebu.
Na nesga do seio eterno,
Teu beijo é dor que engasga;
Gargantas roucas no inferno,
Enfermo que não apagas.
Teus abraços fluxo prolixo,
E matas minha ilusão;
No fundo do bucho é o lixo,
O bicho da sedução.
Se quero tua dor então,
No inferno que irá se abrir,
Mereço esta solidão,
A morte de não sorrir.
Eu também colho pecados,
Na guerra do amor profano;
Caminhamos lado a lado,
Eu, tu, e o desengano.
E assim prosseguiremos,
Muito alem deste inferno;
Muitas portas fecharemos,
Mas não as portas do inferno.
*J.L.BORGES
1994
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