FIM DO INICIO
Te pergunto amor, até quando?
São tantas brigas miúdas e intrigas,
É uma guerra que não tem final.
Neste jogo nosso inferno é eterno,
Ninguém ganha neste jogo terminal;
Nossas fichas já estão no fim,
Nos fazendo simplesmente mal.
Já não sinto o gosto de teus beijos,
Que diariamente torturam minha boca,
Teus abraços esmagam-me arrasam-me,
São correntes ardentes em fogo lento
Que no gozo da noite acendem-me o desejo.
Este amor é uma doença sem cura,
Esta dor é uma imensa loucura,
Intensa a contaminar-me,
É uma felpa rasgando o coração,
Na procura do sim e do não,
Procura que jamais termina.
Mesmo assim todas as noites eu a quero,
Com a alma entrecortada a espero,
E na cama de prego endurecem as manchas,
Da nossa vergonha em brancos lençóis.
Se teus beijos ferem-me, também alimentam,
Serão frutos de mandrágora ou girassóis?
Eu nunca sei, mas sei bem que atormentam,
São algemas de fogo, e tu a minha algoz.
Sei também que algum dia isso acabará,
Este barco de papel que aqui navega,
É a falsa tabua da verdade e da razão,
Onde esta vida ingrata só diz não,
Para a vida que também tudo me nega.
*J.L.BORGES
1994
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