quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

AS MIL FACES DA VIDA

AS MIL FACES DA VIDA

A vida que arde em minha lareira,

São brasas que ardem no leito presente;

Trazendo o calor e a dor desta gente,

Um sol de verão que despe a clareira.

É doce esta vida, a vida que vai,

Embora da gente sem se despedir;

A dor de partir e a dor envolvente,

Num mundo carente que sobe e que cai.

Sou jovem e velho, futura criança,

Uma negra esperança no seio da gente;

Se fui a semente sou vida talvez,

A sarça de Deus, nefasta e ardente.

Cordeiro imolado em seu sacrifício,

Levando da vida o pouco que tem;

Se tu és montanha, eu sou precipício,

Principio manchado na vida que vem.

Quem dera que a vida nunca queimasse,

E nunca ardesse em minha lareira;

A dor que em mim nasce, talvez seja a face,

Da fera ferida sem ser a primeira.

*J.L.BORGES

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