SEREIA DOS OLHOS VESGOS
Nunca mais eu vou te ver,
Sereia dos olhos vesgos;
Nunca mais vou esquecer,
Este sorriso banguela.
Nunca mais vou esquecer,
O bafo da tua boca;
Beijo com gosto de fel,
Nesta procura tão louca.
Estes lábios carnudos, desnudos,
Cor de penas de urubu;
Sereia dos olhos vesgos,
Pele de rabo de tatu.
Ainda hoje recordo,
Quando vi teu rosto seboso
E este teu olhar de fetiche,
Doce olhar, terno e raivoso.
A tua voz parecia,
Apito de trem e bonde;
Sereia dos olhos vesgos,
Onde estas tu que se esconde.
Por que se escondeu de mim,
Sereia dos olhos vesgos?
Pés tamanhos trinta e oito,
Com muitos calos e frieiras.
Corpo cheio de desejo,
Cabelos gordurosos e olhos remelentos;
Tu es igual a uma noite,
Sem luar, mas com tormenta.
Agora longe de ti,
Tenho pesadelos mil;
Teus cabelos são macios,
Esfregão de aço ou bombril?
Voltes sereia, voltes,
Aqui não tem mais orvalho;
Venhas ser novamente,
O meu precioso espantalho.
*J.L.BORGES
P.ALEGRE 1979
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