quarta-feira, 11 de outubro de 2017

CARTA DE UM JOVEM DO INTERIOR NA CIDADE GRANDE


CARTA DE UM JOVEM DO INTERIOR NA CIDADE GRANDE

Você falou que a sua rua,
Continua no mesmo lugar,
A minha também;
Você falou que as vezes,
Na sua rua tem poeira,
Mas na minha não tem.

Na minha rua tem o pior,
Desastres, medos e o desamor,
A velocidade é fatal,
Temos monstros de quatro pés,
De olhos brilhante, que rasgam a escuridão,
Que gritam freneticamente,
que engolem distancias,
E seres humanos.

Você falou que ai,
As pessoas são alegre, felizes,
Aqui nada disso existe,
Aqui tem somente robôs humanos,
Autômatos que vive, tristes;
Que não sabem amar,
Que não sabem chorar,
E muito menos sorrir.

Você falou que ai,
O sol é sempre cálido,
A lua é sempre bela,
É que as estrelas sempre brilham;
Aqui o sol é pálido,
Sem vontade de me aquecer,
A lua fugiu de mim,
E as estrela perderam o brilho.

Você falou que ai,
O frio fortalece a alma,
E congela a maldade;
Aqui não, pois o frio,
Congela a ama da gente.

Você também falou que o vento,
Beija teu corpo meigo,
Aqui é triste,
Pois ele atravessa o corpo da gente,
Como um punhal ferino.

Você falou que ai os pássaros cantam,
As águas são límpidas,
Os campos sempre verdes,
O céu. sempre azul,
Com nuvens brancas.

Aqui só ouço som mecânico,
As águas são turvas,
Os campos? Não os vejo,
O céu muito menos, só arranhas céus,
E nuvens poluídas.

Você fala que o ar,
Por ai é sempre puro,
Que há lindas matas,
Com arvores robustas, há paz.

Aqui o ar é pesado,
Pois há tempos deixou de ser puro,
Matas, arvores e paz já não existem;
Só uma tímida cerca viva,
Nos fundos de meu pátio,
Meu quintal em miniatura.

Pois tenho quintal,
Assim como você tem,
Só que o meu é pequeno,
Tímido, não tão verde quanto o teu,
O meu esta perdido entre a selva,
A selva de pedra que cerca a gente,
Que nos aprisiona, sufoca,
Deixando a gente assim,
Sem vontade de viver,
Só com vontade de fugir;
e vou fugir,
Vou chegar até ai,
Neste teu paraíso,
Teu éden terrestre.

 *J.L.BORGES
PORTO ALEGRE.1979

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