segunda-feira, 16 de julho de 2018

O NEGRO

O NEGRO

Sou a negra tempestade que agita,

As colinas de teu coração agreste;

Sou em teu sono esta noite tão bonita,

Sou teu cavalo de carga, sou tua peste.

Vim de uma África, mãe tristonha,

Mãe que viu os filhos dela irem embora;

Fui teu escravo, hoje sou escravo dos sonhos,

Nada ganho desta vida que devora.

Eu sou negro, não renego minhas origens,

Sou o sangue do Brasil em tuas veias;

Sou a dor deste povo, eu sou vertigem,

Neste mundo desigual que te tonteia.

Passei nesta vida mil horrores,

E ela de mim não teve pena

Ontem eu era negro, era escravo do senhor,

Hoje eu branco, sou escravo do sistema.

                                   
*J.L.BORGES


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