CENTOPÉIA
Pé de vento, e o moleque,
No cata vento se intromete.
Pé de vento, pé de moleque;
No bar do Bento, bebo grapette.
Pé de anjo, num pé qualquer,
Ao som do banjo, dança a Ester.
Pé de cavalo, nos verdes campos,
Grande é o pealo, depois o pranto.
Pé de valsa em bailes de sonhos;
Pedra falsa, eu tristonho.
Um pé de coelho na planta do pé,
Meus olhos vermelhos em busca de fé.
Te falo bobagem no pé do ouvido;
Reviso miragens que a todos não digo.
Teu rosto é macio sem pés de galinha;
Nas noites de frio eu sei que es minha.
Me encontro no pé da mesa na sala
Num tempo qualquer que nunca se cala.
São pés de cadeiras, e até pés de cabra;
Falando besteiras me perco em kadabras.
Nos pés da saudade, sem presopopéia,
Eu digo a verdade, sois centopéia.
*J.L.BORGES
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