terça-feira, 27 de março de 2018

CENTOPÉIA

CENTOPÉIA

Pé de vento, e o moleque,

No cata vento se intromete.

Pé de vento, pé de moleque;

No bar do Bento, bebo grapette.

Pé de anjo, num pé qualquer,

Ao som do banjo, dança a Ester.

Pé de cavalo, nos verdes campos,

Grande é o pealo, depois o pranto.

Pé de valsa em bailes de sonhos;

Pedra falsa, eu tristonho.

Um pé de coelho na planta do pé,

Meus olhos vermelhos em busca de fé.

Te falo bobagem no pé do ouvido;

Reviso miragens que a todos não digo.

Teu rosto é macio sem pés de galinha;

Nas noites de frio eu sei que es minha.

Me encontro no pé da mesa na sala

Num tempo qualquer que nunca se cala.

São pés de cadeiras, e até pés de cabra;

Falando besteiras me perco em kadabras.

Nos pés da saudade, sem presopopéia,

Eu digo a verdade, sois centopéia.

   *J.L.BORGES





Nenhum comentário:

Postar um comentário